—Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o temporal?
—Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas, assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva!
Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava. Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.
Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro saloio.
D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um homem de baixa esphera, e lhe dizia:
—Como está você? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo! Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte alguma.
Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos, incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a nossa residencia.
O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia:
—Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia! Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste!