Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava, como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e que traziam um supplemento de illuminação.
—Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da cavalgadura, como está você?
—Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de quinze annos a não hão de invejar?
—Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu sobrinho.
Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso.
—Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando nós andavamos com o Claudio ao collo...
—Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você, eu era uma creancinha n’esse tempo!
—Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha, tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça?
—Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato ensopado, e ainda não tinhamos passado do fundo da escada, tal era o enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira.
—Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida, não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia. Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo!