—Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam! alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens?

—As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus!

—Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada. E o que havemos de fazer?

—Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas, e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é...

—O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario.

—Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.

—E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo da lareira está-me convidando.

—Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.

E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario, que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico.

—Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os criados, que haviam assistido mudos á precedente scena.