—P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma, apressando-se a mostrarem-me o caminho.
Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e achei-me na cosinha.
A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos espectros.
A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto, que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso.
A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha, a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos palacios, desterrados agora pelos fauteuils, pelos sophás, e pelas causeuses para as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção.
Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela Maria do Rosario, que nos viera receber.
Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha, reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de vinho.
Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de Bellas.
Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos, que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e murmuraram ao ouvido uns dos outros:
—É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida.