—Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me enxugar?
—Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda, e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.
—Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com bem maus agoiros. Que tempestuosa noite!
Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a recem-chegada Lisboeta.
O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos ligeiras da velha.
Reinava silencio profundo.
Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados e olhos fitos em mim.
—Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado, ao ouvido de um rapaz seu visinho.
—Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se conversava quando eu entrei?
—Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada abaixando os olhos negros e travessos.