—Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?

—Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...

—Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?

A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá fóra a trovoada.

—O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu o burriqueiro com a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba.

—Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos.

Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas das portas, fazer vacillar a chamma da lareira.

Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da cosinha.

O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu, chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda.

—E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. João?