—Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas, responderam todos com voz unisona.

—Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação, e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.

—Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz.

—Se a nossa ama dá licença...

—Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir.

—Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas.

«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.

«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto. Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno, quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos lugubres, a que respondia ao longe o funebre piar do mocho...»

—Credo! murmuraram os assistentes.

«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem perturbar-lhe o repouso.