As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra. Percebi que tinha uma nova inimiga.

Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo, fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.

—Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.

—Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me.

Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada, seguindo a Maria do Rosario.

O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio.

Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos escolhera o papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre.

A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros, opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro.

Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma coisa.

—De nada, respondi eu seccamente.