Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.
—Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu.
—Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas estão abertas.
—Obrigada, tornei eu.
Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo em silencio.
Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella batia com furor nos vidros.
Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia, tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital que me incendia o sangue.
Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas deslisavam-lhe pelas faces.
Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas que sol te poderia reanimar?»
«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do papel arredondaram-se tambem em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho, desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a fronte.