—Que loucuras! balbuciei.
E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos devaneios.
A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam ao peso de formidaveis infolio. Tirei ao acaso o primeiro volume que se me deparou. Era o segundo tomo dos Trabalhos de Jesus. Isso exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do meu leito, e principiei a despir-me.
Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e entreabri um postigo.
A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave, que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse momento era o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso, que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe.
Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. Abri ao acaso e li:
«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes; sempre amigo, sempre cioso; porque todo te dás, e toda a tomas; todo te entregas, e toda a prendes.»
Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando, e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!»
XI
Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei. Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com a Maria do Rosario, que andava limpando o pó.