—Que horas são? perguntei eu.

—Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca, não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze, reze, senhora D. Margarida.

—Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.

—Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite.

—Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora.

—Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma, tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas, minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar. Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.

E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a correr pela escada abaixo.

Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da cama, vesti-me e abri a janella.

Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza, entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos, escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova primavera.

Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario.