—Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no inferno, o maldito! Pois então não me deu hontem dois codilhos em casa do escrivão... É verdade, a mulher do administrador lá offereceu um manto riquissimo á Senhora das Dores.
Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera.
—Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus caseiros, que enriqueceu, sabe Deus como,—quer saber, D. Antonia? não está agora ao desafio comigo? A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço um resplendor ao menino Jesus, dá ella um manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae buscar o dinheiro!
—Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e o senhor padre prior consente semelhante coisa!
—Então que lhe hei de eu fazer?...
N’este momento abriu-se a porta, e um homem velho, magro, mal enroupado, mas de meiga e sympathica physionomia, entrou timidamente.
Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e só de mim recebeu uma cortezia amavel. A condessa tratou-o friamente; a baroneza nem deu pela sua entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, dizendo-lhe: «Julgavamos que não vinha», e o padre prior acolheu-o com brados de indignação.
O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para deixar passar a procella, e foi, como que arrastado pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete.
Formamo-nos então em dois grupos distinctos: o prior, a baroneza e Theodoro entregaram-se ás delicias dos codilhos e das licenças, emquanto eu, D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando e costurando, duas occupações que me desagradavam bastante. Procurei vencer a minha repugnancia; mas, apezar dos meus esforços, só de quando em quando soltava uma palavra, e a agulha ociosa descaía muitas vezes no meu collo, emquanto o meu pensamento voava para muito longe do sitio onde estavamos.
Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que nos honravam n’essa noite com a sua visita. Seriam nove horas, quando se abriu a porta da sala para dar entrada a dois novos personagens.