Um homem ainda novo, e uma senhora tambem na flôr da idade foram os dois actores que entraram em scena. O personagem masculino tinha as mais visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e no seu rosto cheio, bochechudo, de alvura deslavada, scintillavam dois olhos pequenos, mas vivos e inquietos, que denunciavam... intelligencia? intelligencia, de certo; mas uma d’estas intelligencias praticas, a que não escapa uma especulação proveitosa, e para a qual são enigmas abstrusos as aspirações grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda o fructo da arvore da sciencia.

A senhora, que o acompanhava, não se podia chamar bonita, porque as suas feições irregulares protestariam contra a denominação; mas os seus olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão malicioso, tão provocador, que lhe illuminavam a physionomia, e lhe prestavam, senão belleza, pelo menos uma certa animação, e um indisivel encanto.

Estas duas pessoas foram recebidas de um modo que contrastava bastante com o acolhimento feito a Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação em regra. A condessa radiante pediu-me licença para me apresentar a sua afilhada D. Carolina «que ella, condessa, se presava de ter educado nos principios da mais severa religião e da mais sã moral» e o marido da sua afilhada «moço de muito merito e virtudes, que (gloriosa excepção no meio da mocidade depravada e impia do nosso tempo) era um modelo de devoção, um exemplar de caridade, e um poço de sapiencia ainda por cima para coroar esta assombrosa pyramide de predicados.»

—Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a condessa, accentuando cada palavra. Posso dizer sem orgulho, que uma menina da sua idade, senhora D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que accrescente, lucra muito com o trato intimo de uma senhora de juizo, como é Carolina, posso affoitamente dizel-o.

A elogiada Carolina achou modo de conciliar um modesto descer de palpebras, que lhe serviu para agradecer o retumbante panegyrico, declamado por sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com que me brindou ao trocarmos o beijo e o abraço fraternaes.

Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, e logo depois, sentando-se, encetou com a madrinha de sua mulher uma conversação, que parecia um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes aristocraticos do partido devoto, e que tinha a dupla vantagem de incantar a condessa, e de deslumbrar D. Antonia. Eu não tinha a minima idéa de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo tempo um vulcão, uma torrente, um moinho, e um Almanach de Gotha em folio, mas um Almanach de Gotha, que uma causa desconhecida puzesse em ebullição, e que arrojasse á atmosphera, como bolhas d’ar, os nomes de quantos marquezes, condes, duques, principes, reis e imperadores existem por esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, e a senhora marqueza disse-me isto, e á volta encontrei a senhora baroneza, que accrescentou aquell’outro, e a senhora duqueza recebeu uma carta de sua santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: «Ó caro Freitas, você não sabe...?» e sua eminencia o cardeal sicrano communicou-me confidencialmente as suas afflicções» e... eu sei, estava atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, incançavel, que apenas se interrompia uma ou outra vez para deixar passar uma trovoada de imprecações com que o padre prior fulminava o pobre Theodoro Leite, que fizera as cinco primeiras, provocando por essa fórma os raios da excommunhão suspensos havia muito sobre a sua calva heretica.

D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os gaiatos, que andam apanhando as cannas dos foguetes, em dias de festividade nacional. Assim ella tambem corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo, para apanhar de relance um nome, que depois de ter estalado nos ares, e produzido o seu effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque de tal?»

Não posso calcular até que ponto estariam os meus nervos á prova de semelhante palestra, porque D. Carolina, que olhara por vezes para mim sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha cadeira, e disse-me:

—Dá-me licença que dê um giro no jardim, e quer-me conceder a honra da sua companhia?

—Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, erguendo-me logo, e acompanhando-a para fóra da sala.