—Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve tempo de me rodear, de me enlear com as suas calumnias? Por amor de Deus, senhora D. Carolina, preste-me justiça maior.
—É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu ella, sentando-se ao meu lado; e em vez de uma alliada tenho em ti uma inimiga? Diriges-me assim uma indirecta reprehensão?
—Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, como hei de arvorar-me em juiz das acções dos outros? O teu procedimento foi-te dictado por motivos que eu não tenho... desculpas que eu... não poderia allegar...
—Não te embaraces mais, tornou ella com certo azedume, só te digo que fazes mal em ir por esse caminho. És inexperiente, e precisas de quem te guie na escabrosa estrada da tua rebellião.
—Mas se eu não tento revoltar-me!
—Queres persuadir-me que amas teu marido?
Não respondi.
—E, não o amando, affirmas que não teem o minimo fundamento as bisbilhotices d’essa tola da D. Antonia?
—Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; ainda que o amor não exista na minha ligação com um homem bom e honrado, basta o sentimento do dever para me impedir de deshonrar o nome, que voluntaria ainda que irreflectidamente acceitei. Póde acredital-o.
—Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga ironia, e não quero ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei outra. Saiba pois, pomba innocente que se julga tão forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida pela calumnia incessante, abandonada por um esposo indifferente ou cego, sentindo referver-lhe nas veias o sangue da mocidade, inebriada pelas tentações que a hão de rodear, se despenhe e macule as azas brancas n’esse tremedal que despreza. Então ha de lastimar amargamente o ter repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para a sala.