—Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, haver-lhe desagradado. Mas acredite que, se a fatalidade me levar a esse aviltamento, não sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção indigna.
—Veremos, respondeu ella erguendo-se.
Voltámos para a sala, e pouco depois todas as visitas se retiraram.
XII
Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na nossa sala de um modo definitivo.
De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança. Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete, Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja contemplação se embevecera.
A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais.
Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão. O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo, que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.—Elle, o firme combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***; Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e afinal, movida pela caridade christã, concedeu-lhe o que elle pedia. A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava generosamente a conceder.
Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu caracter.
Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza, e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira da algibeira um papel, e diz: