A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e disse-me ao ouvido:
—Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos!
Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e na minha presença, exclamei:
—Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique!
XV
Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no sitio d’onde o tirara.
A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D. Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada. Depois sairam todos.
Ficamos sós, eu e Alberto.
Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a lua campeava serena e placida n’um céo d’um azul purissimo, onde se espraiava sem obstaculo a candida luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de noiva. A brisa suspirava brandamente na ramaria das arvores.
Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado que a devia acompanhar na volta. Nem ergueram os olhos para a janella, onde eu estava. Afastaram-se vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus passos e das suas vozes, afinal esvaiu-se de todo, e outra vez reinou em torno de mim essa placidez fremente, se assim me posso exprimir, das lindas noites de primavera, noites em cujo magico silencio palpitam os canticos mysteriosos das fadas, o leve ruido da flôr que desabrocha, o murmurio da seiva, que circula no coração da arvore.