Eu ouvia essas confidencias com um sentimento inexprimivel; doce, quando me deixava embalar pela melodia d’essas magicas palavras que dizem amor e mocidade; amargo quando pensava na vida tal como o acaso m’a fizera, e nas graves consequencias que podia ter para mim essa declaração intempestiva.
—Durou esse sonho pouco tempo, como todos os sonhos, tornou Alberto; mas deixou-me para sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de me ausentar de Lisboa. Encontrei-a em casa de um dos velhos amigos do meu pae, o visconde de ***, passeava vossa excellencia no jardim, quando eu entrei. Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. Meu pae, o visconde, o pae de vossa excellencia e outros amigos estavam tomando café n’um dos kiosques. Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a frescura do crepusculo ás calmas abrasadoras do dia. Reinava em terra e céo perfeita serenidade. O firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao longe, doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam no occaso. Um d’esses raios ficara tambem como preso ás arvores do jardim. Vossa excellencia passeava de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que se erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros em vagasinhas d’oiro, quando o raio de sol alcançava beijal-os. O seu passear vagaroso e indolente, as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos seus labios, que aspiravam a aragem embalsamada, tudo se casava tão bem com a languida voluptuosidade da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado por tanta formosura, palpitou-me com violencia o coração, e nem tive animo nem força para me approximar de vossa excellencia. Infelizmente ou felizmente (eu sei?) estava para se retirar. O visconde foi-se despedir de vossa excellencia e de sua mamã, e a viscondessa acompanhou-as. Vossa excellencia colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao aspirar-lhe o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com os olhos, vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, e quando chegou ao terraço para onde deitavam as portas do palacio, vi-a encostar-se á balaustrada, e fitar vagamente os olhos no horisonte affogueado, no rio onde o oiro se ia transformando em purpura, e nas montanhas cujos pincaros se azulavam com a distancia. O seu vulto, estampando-se por essa forma na atmosphera transparente, com a fronte cingida por uma vaga auréola, tendo por traz de si um foco de chammas em cada vidro, que os ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que o aspecto phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, que apparecem ao pôr do sol, com a harpa de oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio. Distrahidamente deixou cahir a rosa que tinha na mão; depois desviou-se do parapeito, e desappareceu no interior do palacio.
—Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me.
—Hesitei um instante, continuou elle sem parecer que reparava na minha interrupção; antes de ir levantal-a: depois não me pude conter, e fui-me approximando como que distrahidamente do sitio onde estava a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, beijei-a, e guardei-a no peito... Nunca mais me separei d’ella, continuou com voz abafada; essa visão da minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os sonhos, esse louco amor extinguiu-se como era natural, mas a flor secca nunca mais me deixou; é o meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse periodo luminoso da minha vida, esses doces annos que se sumiram para sempre no abysmo do passado.
E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, passou-a para as minhas mãos.
Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas petalas sem viço da pobre flor, sem que esse amargo orvalho lograsse reverdecel-a. Assim tambem os meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa que perdera.
Alberto viu a lagrima, e disse-me:
—Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente quando não havia ainda saudades na sua vida, exerce no seu espirito a mesma fascinação que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a prova de que para sempre quebrei com o meu passado.
—Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o seu nobre caracter, que nem por um instante duvido de que me não teria feito essa confidencia, se não consagrasse simplesmente um affecto de irmão á esposa do seu amigo.
—Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a mão no peito, se não me sentisse completamente livre, e desassombrado, se o meu coração me désse inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não teria entrado n’esta casa. Teria vergonha de mim mesmo, se não pudesse agora fitar os meus olhos nos seus com purissima serenidade. Mas se julga que apesar d’isso, não devo tornar a vir aqui; se julga que esta memoria d’um amor passado, é uma offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade para com o meu amigo, se julga que uma recordação involuntaria, espelhando-se no meu rosto, póde dar uma arma aos calumniadores, diga uma palavra e estou prompto a retirar-me.