—Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me honrado com a sua estima, e sabe que nem por sombras sou capaz de a offender. Mas vejo, presinto que se está elaborando n’esta casa alguma intriga mysteriosa, de que vossa excellencia é victima, e onde me fazem desempenhar um papel, seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena e inteira franqueza. Vou-lhe submetter um caso de consciencia. Depois de lhe ter feito uma confissão completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo ou não tornar a pôr os pés n’esta casa.

Alberto calou-se por um instante, passou a mão pela testa, como para avivar a memoria do passado, e principiou depois em voz baixa e agitada:

—Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava eu na vida, e relanceava os olhos em torno de mim com a ingenua curiosidade de quem tudo vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando o aspecto de risonho enigma de tentadora resolução. Entre todas essas miragens de que a nossa vista se namora, quando pomos o pé na orla d’este deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. As outras visões apparecem-nos como simples oasis; esta surge-nos como paiz de fadas. As outras serão sombras e frescura; esta, flores e fragrancias. Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro despertou no meu peito, vago canto sem assumpto, melodia sem letra, que me extasiava como o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. Uma vez encontrei-a a vossa excellencia com sua familia n’uma das quintas de Bemfica. Obedecendo ao inexplicavel condão da formosura, os meus olhos seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto airoso, que se sumia ao longe nos meandros das lamedas. Momentos depois, tornei a encontral-a, e a impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e recresceu de intensidade quando me achei preso na esphera de fascinação magnetica, que os seus olhos sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa e fina cabecinha a sua! Que primoroso oval o do seu rosto! E o aveludado da sua tez, e o seu pisar tão gracioso, e mais que tudo a suprema elegancia, a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil e dos contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, me deslumbrou por tal forma, que não pensei mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e tornasse, despregando as azas brancas, ao Empyreo, d’onde viera.

—Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, devéras enleada.

—Perdão, minha senhora, tornou elle com certa melancholia; não julgue que estou evocando o passado, de proposito para lhe fazer uma especie de declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, e para o ser abri o livro da minha memoria, e reli-lhe as paginas taes como as escrevera n’esse tempo. Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, que fira a sua susceptibilidade.

—Continue, murmurei eu com voz que mal se ouvia.

—D’esse momento em deante, minha senhora, continuou Alberto, consagrei-lhe um amor mysterioso, que me deu infindas alegrias. Povoou-se a minha solidão com uma imagem, em que todos os meus sonhos se incarnavam. O encontral-a era para mim um prazer immenso; mirar a janella cerrada do seu quarto causava-me não sei que doce commoção; divisal-a a vossa excellencia encostada ao peitoril, ou devaneando vagamente, ou lendo algum livro, era um extasi indisivel. Fugia para o meu quarto, levando como thesouro precioso uma das fragrancias, em que a flor se desata, um dos raios de luz que a estrella desprende da sua fulgida corôa, sem que estrella nem flor tenham consciencia do jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava o seu vulto, via-a debruçar-se para mim, sentia-lhe os cabellos roçarem-me ao de leve pela fronte, e estremecia como se a impressão ficticia do meu devaneio fosse uma impressão verdadeira. Olhe, quer que lhe diga? Tenho saudades d’essa loucura, e voltando os olhos para o meu passado, não encontro n’elle horas mais suaves do que essas, em que, a sós com uma sombra, fui lendo, estrophe a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca se escreveu.

Aberto, extraordinariamente agitado, deu um passeio na sala, e foi a final encostar-se de novo ao peitoril da janella. Os effluvios da primavera adejavam no ambiente, por onde os espalhava a doida brisa sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. Os raios da lua vinham já espraiar-se no chão do aposento. Eu, inclinada para o piano, pensava n’esse mundo novo, que se me apresentava, n’esses novos horisontes, que se rasgavam deante da minha phantasia. Esse amor mysterioso que acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas do presente com um raio d’esse fulgor extincto, como a lua, que, invisivel em quanto o sol campeia no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear as sombras com um reflexo ao clarão diurno.

—Se soubesse, tornou Alberto voltando para mim, como a sua imagem me acompanhava sempre! como o seu nome, que eu logo soubera, me acudia constantemente aos labios! como eu gostava de o pronunciar! como eu devorava os romances em que esse nome apparecia! como eu o associava a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera predilecta, quando a musica me elevava ás regiões do extasi, era o seu nome como a chave de oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! «Margarida, amo-te,» balbuciava eu, quando Desdemona suspirava a aria do Salgueiro; quando Violeta gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava esse cantico sublime de amor e tristeza, que se chama Lucia. E se por acaso tinha a felicidade de a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam no seu rosto querido, como eu seguia a impressão que a musica produzia na sua alma, e que se espelhava nos seus olhos!

A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, e os raios da lua vinham esmorecer languidamente no chão do aposento.