A doce influencia da musica banira do meu espirito as impressões desagradaveis, que a scena antecedente me deixara. As azas brancas da melodia arrastavam-me suavemente para os campos ethereos do ideal.
Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao acaso do teclado foram tomando uma fórma determinada, e, quasi sem eu ter consciencia d’isso, os meus dedos despertaram no seu leito de marfim a serenata do Marino Faliero.
Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu murmurio erguer-se timidamente, e embalar-se na sua cadencia com tanta brandura, como as aguas do Adriatico podem embalar no seu dorso uma gondola veneziana.
Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava incerto, entregou-se ás voluptuosas caricias d’essa languida melodia.
Depois a musica expirou como havia começado: sem motivo, sem razão, comme un oiseau se pose, diz Victor Hugo.
Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada n’uma das mãos. Quando a ultima nota se esvaiu no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para mim. Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho.
—Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao piano, sabe quem foi o objecto do meu primeiro amor?
—Não, redargui espantada da pergunta.
—Foi vossa excellencia.
—Eu! tornei estupefacta e levantando-me.