E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio. Que symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.

Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D. Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam. Ia ser feliz emfim!

Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente.

Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco, e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.

Eram Alberto e Carolina.

XVII

Ficámos todos tres por um instante enleados; Alberto foi quem primeiro tomou a palavra, com o seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a imital-o; mas, por maiores que fossem os meus esforços, negaram-se-me os labios a articular um som. Percebia que, se tentasse fallar, os soluços brotariam d’envolta com as palavras.

Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, e fugi para o meu quarto. Alli chorei á vontade, desabafei. Quando esta dôr inexplicavel se acalmou um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo d’esses prantos.

«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto um homem como todos; o amor profundo que disse consagrar-me não deixou o mais leve rasto na sua memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, é um prostibulo, aquelle coração tem a porta franca para quaesquer imagens.

«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? Que direito me deu elle para fiscalisar as suas acções? Não me disse, não me affirmou, não me jurou até que esse amor antigo se dissipara como um devaneio de juventude, como um relampago de estio, que brilha e morre no firmamento azul? E não me devo eu até rejubilar com este acontecimento que me prova a verdade do que elle me dizia? Não contribue isto mesmo para dar nova paz á minha consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das calumnias de D. Antonia e da condessa?