«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção é a amisade fraternal, que a Alberto consagrei, é a estima que votei a esse espirito nobre! Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do seu pedestal a alma que eu julgara quasi superior á humanidade. O amor de Carolina macula um homem. E demais aquillo não é amor, é um capricho dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O amor não brota assim d’um instante para o outro, não viça com tanta facilidade nas cinzas d’um affecto extincto.
«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, não queiras disfarçar com o vão nome de amisade o sentimento culpado, que se te apoderou do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo de vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio teu, és tu só a culpada; não podes allegar a influencia magnetica de um amor constante e vehemente, que actuasse a teu pesar no teu espirito e no teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, e não mereces ser respeitada, porque moralmente já trahiste os teus deveres de esposa, já falseaste a fé conjugal.»
E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, e me inundou as faces.
Quando desci do meu quarto para a sala notaram todos a minha agitação. Alberto mirou-me inquieto, Carolina com um modo de ironia tal, que me deu forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. Queria soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, e sem dar ás minhas inimigas motivo para folgarem e triumpharem.
Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que tornou a mostrar-se todo attencioso e galanteador com a afilhada da condessa.
«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel é essa paixão, que nem elle tem forças para m’a occultar, e para a occultar aos outros. Não se lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora solteira, a quem se possa affoitamente render homenagens?
«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, tão inquisidores comigo, estão cegos, ou fingem-se cegos, que não vêem ou não querem ver o escandalo, que se está praticando n’esta sala? Que é feito da austera moralidade d’esta gente? Onde se aninharam as suas severidades?...»
Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava sendo involuntariamente mais culpada do que elles? Não via eu que estes assomos de austeridade tinham a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir com todas as forças da minha alma? Era a fatalilade que me impellia. Tranquilla vira entrar Alberto em minha casa, sem pensar em o distinguir dos outros homens. Accusando-me de um crime, de que nem sequer tivera o pensamento, obrigam-me a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua imagem deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente o compare ás outras pessoas, que me rodeiam, comparação que não póde deixar de lhe ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, caminho com desassombro n’essa estrada semeada de perfidias, não vejo o abysmo que a pouco e pouco se me vae rasgando aos pés, que cada um dos meus passos alarga insensivelmente, abysmo por onde vou resvalando, e em que afinal baqueio.
Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera mil vezes mais baixa do que essa onde vivem as minhas accusadoras. A calumnia tinha rasão, os calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, folgae, Messalinas de sachristia! conseguistes o vosso fim. Enxovalhei-me na lama, que tão obstinadamente me arrojastes ás faces! Polluí a corôa da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera no pensamento, e isso basta para me julgar mais vil aos meus proprios olhos do que essa que alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, e que está agora impudentemente demonstrando á minha vista a veracidade das suas doutrinas.
«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao menos não hei de transpor os limites que ainda me separam d’uma vergonha completa. Esse amor fatal, que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, como a áspide que me ha de matar, sem que o meu rosto revele os meus tormentos. Deixando de parte o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso, voarei para as regiões da phantasia, e ahi viverei enlaçada n’um casto amor com a sombra pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, e não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle mais do que elle a si proprio se possue, porque é minha essa flôr secca, symbolo da sua poetica existencia, ao passo que elle, afastando-se cada vez mais d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins da torpe Armida, que soube, com um olhar provocador, transformar uma alma tão nobre n’um espirito vulgar.»