—Permitta-me que não escolha confidente, respondi eu com frieza. Costumo guardar os meus segredos, mesmo quando, como este, nada têem de melindroso.

—Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou Carolina, que se me não faz confidencias, não é porque não tenha assumpto para ellas; apanhei-a em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me zango com isso; sempre tive muita consideração pelas pessoas que sabem esconder bem o seu jogo. Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça á sua veracidade. Eram erroneas as minhas supposições ácerca de Alberto Mascarenhas, e verdadeiras as suas negativas.

—Já o sabe? tornei eu com ironia.

—Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu ella impudentemente.

Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo Freitas.

—Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu marido, e bom será que voltemos para casa. Não desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde.

Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. Montamos a cavallo, e seguimos pelo caminho da nossa aldeia.

Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. A agitação, que por instantes se acalmara, refervia-me de novo na mente, excitada pelas palavras de Carolina.

Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me a moderar o passo do cavallo, continuou a conversação principiada na quinta.

—Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes?