—Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente o sobr’olho.

—Da intimidade que existe agora entre mim e Alberto.

—Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, respondi, insulto que demais a mais não comprehendo, depois do que me disse ainda ha pouco.

—Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla em amor? A amisade não inspira tambem zelos?

—A mim não, decerto; estimo até que os meus amigos se liguem com pessoas dignas do seu affecto.

E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras.

—O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, que me acha completamente indigna d’essas affeições. Oh! minha querida, sou perfeitamente da sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo comnosco sobre esse ponto importante. Que quer que eu lhe faça?

Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes em silencio.

—Alberto, tornou Carolina no tom mais placido d’este mundo, é realmente um dos rapazes mais amaveis que tenho encontrado. Associa ao caracter nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e coração ardente; raro conjuncto de predicados. A sua voz insinuante exerce sobre quem o escuta um dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e ardente captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, um principe nas maneiras, um anjo no sentir. É a realisação d’esse marido ideal, que todas nós devaneamos aos quinze annos, antes de descermos á prosa do mundo para casarmos com os Jeronymos Freitas, e com os Claudios da Cunha.

—Tudo isso é amisade?