—Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no mesmo tom sereno. Olhe, eu não sou diplomata senão com a tola da condessa, e com a sua beata roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que me vejo obrigada a desempenhar todos os dias, que, mal entro nos bastidores, não tenho forças para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á scena. Por isso lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me a Alberto um amor profundo. É abominavel? Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. Mas, filha, tenciono consagrar a minha velhice a um longo arrependimento. Hei de ir a Roma, hei de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes, proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças indigentes, obras pias de que seria dispensada, se não passasse a minha mocidade a commetter alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê que lucra com isto a beneficencia publica. Tive a fraqueza de amar Alberto. Não a teria, se suspeitasse que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. Mas não; soube que era falso tudo quanto a D. Antonia dissera, soube que se não amavam, e ficou-me a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo. A minha querida Margaridinha, que sabe quanto é poderosa a influencia da poesia, pode comprehender o modo como eu cedi aos protestos d’amor d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda como esta; estavamos ambos sós na sala, contemplando o horisonte dos campos. Alberto murmurava-me ao ouvido essas palavras deliciosas, que sempre eccoam n’um coração feminino. A belleza do céu, as harmonias campestres, o doce murmurio da sua voz, a poetica auréola com que o sol moribundo lhe cingia a fronte, a solidão da sala, tudo conspirava contra mim. Senti-o aproximar-se...
—Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente louca e desvairada, n’um paroxismo de dor, sem saber o que dizia, nem o que fazia, não quero ouvir mais as suas infames e mentirosas confidencias.
E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um galope desenfreado, soluçando a um tempo de dor, de raiva e de vergonha. A viração da tarde trouxe-me ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e estas palavras, que proferia ironicamente:
—E não o amava?
XVIII
N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha vergonha.
Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma janella, voltou-se para a porta. Era Alberto.
Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle, travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços:
—Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu?
—O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação, o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...?