—Amo-te!

XIX

Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a cabeça, estava D. Antonia deante de mim.

Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu orgulho no abysmo para onde me tinham impellido.

Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era um sorriso diabolico o seu?

Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei n’ella os olhos scintillantes.

—Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o remorso?

—Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua obra.

—Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre! Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio, e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu avisei-os a todos.

Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou costumada a isto. Deus m’o levará em conta.