—Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar a sombra do estygma que o mundo nos inflige?

—E a consciencia... tornava eu.

—Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só, Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto. Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me, e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio occeano, a lampada do meu ermo sanctuario.

—Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor de irmão.

—Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.

E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o, disse-lhe brandamente:

—Alberto!

Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.

—Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos.

Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com fervor, e saiu, dizendo: