Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo, um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor, o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das noites rescendem n’essa hora mysteriosa.

Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da Luiza Miller, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite; não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou Alberto, como já disse.

Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas presentes, disse logo:

—Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa excellencia.

—Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois, cante-nos a romanza.

—Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes? Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae cantar admiravelmente a aria que me pede.

—Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura, de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão disponiveis para acompanhamentos.

—Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto a obedecer ás ordens de vossas excellencias.

Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica, se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o Ah! perché non posso odiar-ti da Somnambula, ou o Mentré contemplo das Vesperas Sicilianas, ou o Questa o quella do Rigoletto.

Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das teclas as notas graves da introducção.