A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento, silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico, melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida, mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava:
Quando le sere, al placido
Chiarore d’un ciel stellato
O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos, adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando, n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol. Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando, todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito immenso de amor e de jubilo:
Allor parea l’Empireo
Aprir-se all’alma mia
não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos olhos e inundarem-me as faces.
Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?»
—Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que me surprehendeu, mas que já me passou.
—No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade.
—Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já.
—Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam.