Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me para a sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não porque ella me não tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima senhora no fundo, tem um terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda inspirar amor, e{25} combate, com uma energia desesperada, as asserções da sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha d'uma sua irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra os cabellos d'um ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto de minha tia.
Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha edade, e de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a dançar com sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das supplentes das contradanças, que só se convidam quando falta algum par para fazer a quadrilha completa, não me leva aos bailes, porque são, diz ella, perigosos para as meninas da minha edade, e até comtigo mesma, perdôa-lhe, minha boa amiga, se não quer relacionar, dando para isso razões frivolas, mas sendo o verdadeiro motivo os teus vinte e cinco annos que não podem ficar bem á amiga de collegio d'uma menina tão nova como eu devo ser, segundo os seus calculos.
Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no collegio, depois da tua{26} partida, sem chegar uma unica vez á janella, lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda se colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro passeiante ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite as homenagens.
O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim, cheio de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as tardes, e onde muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu largas horas scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender pelos primeiros clarões da alvorada.
Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos, já que minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir{27} a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me, porque só as tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia.
Tua boa amiga
Adelaide.
Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da maliciosa rapariga.{28}
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