Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova da completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se fazia interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um pretexto para desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e louvou-se de não ter avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição ridicula com pessoa que a aproveitaria com tão boa vontade. A todos estes sentimentos, que primeiro lhe tumultuaram no cerebro, succedeu o amor proprio offendido, «Pois que! dizia elle, é de marmore esta mulher? Está junto de mim n'aquella noite voluptuosa,{30} toda impregnada de languidas emanações, de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, sente a minha respiração abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta as minhas mãos trementes, deixa-se embalar commigo, commigo como uma creoula na rede, pelo movimento lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada d'isso a commove, e lhe faz perder por um instante ao menos, os seus habitos de coquetterie? A propria Leonora Falconieri de Feuillet sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle bote que resvalava ao lume d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um sulco phosphorescente, e Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o fogo infernal das suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do amor d'uma das suas amigas? Oh! coquette.

«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar essa mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, quando não tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente desastrado, então serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, far-lhe-hei sentir{31} bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não com os espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, triumpharei... e talvez conseguirei d'essa fórma attrahil-a e fascinal-a, como ella me fascinou a mim.»

E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...

Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar as janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a idéa de que se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não era cousa que muito custasse á sua timidez rebelde.

Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. Frederico fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou por causa d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo os olhos da galante menina, que logo os desviou o mais depressa que pôde, mas sem que podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante delicto. Frederico affastou-se triumphantemente.{32}

Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse passar d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o seu passeio diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os seus novos amores. A sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e convidou-o para jantar.

Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um pequeno mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em grupos, e Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.

A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade baixa, e do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre uma porção do rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.

Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o Tejo, rodeando com um nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais além uma sombra tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, devia ser o vago perfil da torre de Belem.{33}

A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de perfumes. Frederico scismava.