Frederico, consternado, olhou em torno de si, e vio um banco ao fundo da alameda. Segurando com o braço na cintura de Adelaide, foi-a levando para esse lado.

Adelaide caiu sentada no banco, e escondeu o rosto entre as mãos.

Frederico ficou silencioso junto d'ella. Sentia d'elle uma desconhecida perturbação. Aquelle encontro inesperado, a solidão e a noute, o perfume das flores, combinado com essas vagas e voluptuosas emanações das noites d'estio, esse vulto flexivel e airoso de mulher que lhe pendera nos braços, tudo isso, sobrevindo d'um modo tão imprevisto, o enebriava e entontecia.

Vendo aquella mulher tão linda, com o rosto banhado de lagrimas, o animo desfalleceu-lhe; como havia elle de dizer a essa creatura do ceu, quando estava elle mesmo sujeito ao indizivel magnetismo, á fascinação do seu olhar, como havia elle de lhe dizer: «Illudi-a,{64} sacrifiquei-a a uma coquette, fiz do seu vulto gracioso e angelico, anteparo, que me resguardasse do fogo d'uns olhos audazes, que me fascinavam e me queimavam?»

Impossivel! completamente impossivel!

Por isso Frederico pôde apenas balbuciar:

—Perdoa-me?...

Ella abaixou para elle os olhos, em que atravez das lagrimas transparecia um amor immenso, e com voz suave, tremente, doce e suavissima, como vibração longiqua d'harpa eolia, murmurou:

—Perdoar-lhe! como lhe não hei de perdoar, se por este momento anciava, se o meu desejo era vel-o ahi onde está, e ouvir a sua voz? Oh! meu Deus bem sei que me vae julgar mal, bem sei que o devia repellir, que devia estranhar o seu proceder? Que quer? Não tenho animo. Ha tanto tempo que a ventura me foge, que não posso fugir-lhe agora que ella me surge de subito! Depois eu sei que é cavalheiro, sei que me ama, li-o no seu olhar, e esse livro mysterioso para nós outras mulheres não tem segredos. Confio na sua honra, e sequiosa ha tanto d'esta suprema felicidade,{65} ouso dizer-lhe: «Obrigada por ter vindo, obrigada por ter prevenido o meu secreto desejo, obrigada por ter lido nas minhas faces pallidas, nos meus olhos amortecidos a anciedade que me devorava, por ter adivinhado que morria longe de si, como a flor, a que falta o orvalho, como a arvore a que falta o sol.»

Frederico, arrastado por esta eloquencia ardente, fascinadora, auxiliada por uma indescriptivel melodia de voz, pelos murmurios dulcissimos do jardim, sentia abrazar-se-lhe a imaginação, e o vulto de Lucinda, que por momentos fluctuava diante d'elle, esvaía-se ao longe como um sonho ao romper da alvorada, e as palavras d'ella, que primeiro se haviam interposto ao seu ouvido, e á voz d'Adelaide, pareciam-lhe agora tão frias e descoradas, comparando-as com essas phrases vehementes, que lhe iam ferir o coração, porque do coração partiam!...