—Então todos os litteratos de Lisboa teem cabellos louros e olhos azues?
—Todos, minha senhora, exceptuando os ultra-romanticos, que esses teem olhos verdes e cabello ruivo, e se me dão licença, minhas senhoras, retiro-me; porque estou caindo de somno e de cansaço.
E saiu, deixando ficar os seus hospedeiros, como se vê, perfeitamente conhecedores da physionomia dos litteratos lisbonenses.{91}
III
No dia seguinte acordou Eduardo sobresaltado, ouvindo o piano revoltar-se em guinchos desafinados contra os incriveis tormentos, com que uma das meninas martyrisava o inoffensivo teclado.
Eduardo julgou que seria pelo menos meio dia; saltou fóra da cama, e correu á janella. Um nevoeiro densissimo não deixava calcular as horas pela altura do sol. O nosso alferes tinha vindo na vespera com tanto somno, que nem reparára que havia um relogio em cima da mesa; quando voltava da janella, deu com elle, e viu que ainda não eram oito horas!
Com effeito, pouco depois da aurora ter{92} vindo abrir com os dedos rosados as portas do Oriente, viera a menina Feliciana (parda n.º 2) abrir o piano com os dedos côr de cobre, e sobresaltar Eduardo com aquella desafinação matutina.
O nosso heroe arranjou-se á pressa, e abriu a porta do quarto. Apenas o ex-negociante o sentiu, veiu ter com elle rindo muito.
—Ora viva o nosso mandrião; vá almoçar, ande que lá tem guardado o almoço. Como passou a noute?
—Perfeitamente; eu peço mil desculpas do incommodo involuntario que lhe dei; mas vinha tão cansado, e com tanto somno, que, por melhores tenções que formasse, não consegui levantar-me a horas, mas protesto que será a ultima vez, que isto me ha de succeder.