—Na sua idade, minha senhora, tornou Eduardo, vendo que não havia remedio senão afinar a conversa no tom de Emilia, na sua idade, só uma paixão infeliz produz grandes infortunios. Ora v. ex.ª póde inspirar, mas não sentir uma paixão infeliz, não julgo os santo-thyrsenses tão faltos de gosto, que algum d'elles recusasse a felicidade invejada por todos. Só se a morte lhe veiu truncar nas primeiras paginas algum romance da juventude...
E Eduardo, ufano (com rasão) do romanticismo da sua linguagem, recostou-se na cadeira com gravidade igual á d'um illustre orador, que, ao acabar um discurso monumental{95} ácerca do sino da sua parochia, é cumprimentado por varios senhores deputados de todos os lados da camara, e de todas as côres politicas.
—Oh! mas vêr as illusões desfolharem-se pouco a pouco, observou a sr.ª D. Emilia, e ver trocar-se o amor ideal, que sonhámos, pela vil realidade d'este mundo prosaico... é atroz, não é?
—Soffrer tormentos horriveis... eis a fatal predestinação das almas privilegiadas, tornou Eduardo, abanando a cabeça lugubremente.
—Diz bem, diz. Ah! não encontrar eu no mundo uma alma irmã da minha, que comprehenda e avalie o meu affecto! Oh!
—Ih! que massadora, disse Eduardo com os seus botões; tem curso completo de romances sentimentaes. E o caso é que não é feia. Vou-me propor a candidato ao throno do seu affecto.
—Ó Feliciana, dizia entretanto o sr. Bernardo á menina que tocava piano, toca-me aquelle bocadinho do Ernani, de que eu gosto tanto.
—Qual é?{96}
O illustre Bernardo começou a assobiar a Maria Cachucha aproximadamente.
—Ah! já sei, é a cabatina do soprano. Já toco.