As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas{11} aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote. Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas.
Os dois velhos tinham-se sentado na popa do barco. O vento, sem ser forte, era sufficiente para infunar a vela e para dar ao bote um leve balanço, que foi suavemente acalentando os dois esposos. Estes principiaram a bocejar alternadamente; depois foram deixando pender as cabeças até que tocaram quasi nos joelhos.{12} Levantaram-se a um tempo, e olharam espantados, com os olhos meio abertos, para o céu azul. Depois os olhos fecharam-se de todo, e os comprimentos recomeçaram. Pareciam dois mandarins d'étagére. Frederico e Lucinda a custo soffreavam o riso, e trocavam entre si olhares de intelligencia, que presagiavam uma reconciliação. Os dois velhos resmungavam palavras inintelligiveis, e recostavam a cabeça para traz, de fórma que a cabeça, em vez de lhes descair de pôpa a prôa, descaia-lhes de bombordo a estibordo, e de estibordo a bombordo, movimento bem combinado, que produziu um abalroamento, que os despertou a ambos.
—Senhor Azevedo, bradou a matrona indignada, não tem vergonha de vir a dormir no bote? Já me estragou as flores da cabeça.
—Senhora D. Leocadia, respondeu o velho com dignidade, veja se dorme com mais cautella para não amarrotar o chapéu das pessoas, que vão acordadas a scismar nos seus negocios.
Estas apostrophes promoveram a explosão das gargalhadas, já muito reprimidas, de Frederico{13} e de Lucinda. O velho mirou-os com espanto, embrulhou-se mais na manta, encostou-se para traz e principiou a resonar.
—Este Azevedo sempre foi assim, disse a velha esposa fazendo côro com os dois, dorme em toda a parte... Como elle resona!
E dizendo isto, a boa senhora olhou com despreso para seu marido, deixou descahir a cabeça, e entrou no duetto resonando egualmente.
A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.
Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.
Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos, sulcando a{14} agua, erguendo-se e recaindo de novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares. Muito tempo a corda fremente da guitarra enviou de longe aos ouvidos de Frederico e de Lucinda, a sua melodia toda impregnada n'uma vaga tristeza, e expirou ao longe n'uns quebros de indizivel suavidade. Frederico suspirou.