—Pensa nos seus amores? perguntou Lucinda sorrindo.

—Amores, balbuciou elle, como, se os não tenho?

—Não os tem? Quem não tem amores aos vinte e dois annos?

—Eu que sou um desherdado da fortuna, eu para quem a natureza, mãe benefica de todos, sempre se tem mostrado implacavel madrasta, eu para quem as flores não tem aroma,{15} nem luz brilhante o sol, nem suavidade melancholica o luar.

—Oh! meu Deus, exclamou Lucinda, quererá imitar esses Obermans da moda, que se declaram scepticos, quando ainda não tiveram nem sequer uma illusão, quanto mais as decepções que alardeiam?

—Não, minha senhora, tornou Frederico, tenho muitos ridiculos, mas d'esse livrou-me Deus. Porém sou um d'estes entes malfadados, que nunca ousam levar aos labios a taça que se lhes apresenta cheia a trasbordar; uma d'essas abelhas, a quem as rosas mostram o calice entre-aberto, e que volteiam em torno d'ellas, sem ousarem ir delibar o seu mel na redoma fragante que se lhes apresenta. Sou como Rousseau, deitando as cerejas no avental de mademoiselle Galley, sem ousar ver os labios mais vermelhos do que os fructos, convidando-o e attrahindo-o. E o que fez mademoiselle Galley ao desastrado philosopho? voltou-lhe as costas, e foi zombar d'elle com as suas companheiras, deixando esse Tantalo d'amor a amaldiçoar a sua falta de audacia. Esse riso argentino, que Rousseau ouviu talvez{16} trepado ainda na ceregeira, oiço-o eu a cada instante nos labios, que poderiam matar com duas palavras meigas esta sêde que me devora.

—E essas duas palavras ainda ninguem as proferio?

—Ninguem, respondeu Frederico suspirando.

—E com tudo, tornou Lucinda, conheço eu uma pessoa em cujos labios ellas fermem.

—E quem é essa pessoa? perguntou elle ancioso.