—Não jure, mas prometta-me apenas uma cousa.

—Qual é?

—Escolher-me para confidente dos seus primeiros amores.

—Mas, minha senhora... bradou Frederico, desesperado por ver fugir-lhe o momento que tanto ambicionára, e que julgára já tão proximo.

—Silencio, respondeu Lucinda pondo-lhe a mão alva e tepida no braço, não vê que estamos em Lisboa?

Frederico não sabia se havia de beijar ou morder essa mão travessa, que lhe approximava da boca a taça do philtro suave do{18} amor, para lh'o furtar depois aos labios calcinados. Afinal não fez nem uma nem outra cousa.

Mas effectivamente estavam em Lisboa. Nas aguas negras do Tejo, aqui e ali ainda prateadas por um raio da lua, que se insinuava por entre a intrincada floresta dos mastros das embarcações, ondeava o reflexo trémulo dos candieiros do gaz. Ao choque do barco parando de subito, acordaram estremunhados os progenitores de Lucinda. Frederico ainda esperava ao menos poder sentir o doce peso da gentil menina, ajudando-a a saltar em terra. Mas a volumosa mamã offereceu-lhe o braço, e em medos e tremores reteve-o tempo bastante, para que Lucinda, ligeira como uma gazella, saltasse para o caes, poisando apenas ao de leve os dedos finos e alvos no braço d'um dos remeiros.

Frederico despediu-se pouco amavelmente dos seus companheiros de viagem, e teve vontade de mandar passeiar Lucinda, quando esta lhe disse ao ouvido:

—Não se esqueça do que prometteu.

É verdade que o pobre rapaz, voltando a{19} cara com um gesto de amuo, não poude ver o longo olhar, apenas levemente malicioso, com que Lucinda o seguia.{20}