Tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens, e os dois ultimos governadores da India, no tempo de D. Manuel, não foram lá grande cousa, mas tambem não estragaram nada.[{104}] Aquillo então ía n'um sino. Os portuguezes espalhavam-se por toda a parte, de um lado chegavam á China, do outro á Persia, do outro ás Molucas, do outro a Cambaya. Tinham fortalezas por toda a parte; elles recebiam a boa canella de Ceylão, o bom cravo das Molucas, a boa pimenta da India, os bons cavallos da Persia, as sedas da China, o incenso da Arabia, os diamantes de Golconda, e traziam estas riquezas todas para a Europa e vinham aqui a Lisboa, que estava sempre cheia de navios, os hollandezes e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo. Do Brazil não se fazia caso porque nem valia a pena; na Africa sempre se íam tomando praças, que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros se exercitar a fidalguia, que depois fazia o diabo a quatro na India. Emfim, quando D. Manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes vindos de todas as suas conquistas, Roma ficou embasbacada, e não se fallava em todo esse mundo senão na grandeza de Portugal. Bons tempos, meus amigos, mas que duraram pouco!

No reino, D. Manuel logo mostrou que, se não era tolo, tambem não tinha o entendimento de D. João II. Poz fóra os judeus; é verdade que depois, quando em Lisboa o povo fez uma matança nos que tinham ficado a titulo de se terem convertido, mostrou-se muito zangado e castigou a cidade. Grande[{105}] não foi elle, mas viu-se cercado de gente que o fez grande, e teve a esperteza de os saber conhecer. Depois, punha-os de parte com a maior facilidade, mas atinava com elles; só não percebeu o que podia esperar de Fernão de Magalhães, que, zangando-se com uma picardia que lhe fez, passou para Hespanha, e assim nos deixou ficar sem a gloria de termos sido nós os primeiros que deram volta ao mundo, como fizeram os hespanhoes commandados pelo tal Fernão de Magalhães, porque isso, n'aquelle tempo, não havia por esses mares uma onda que não marulhasse em portuguez...

—Em portuguez porque? perguntou o Francisco Artilheiro. Eu nunca percebi o que ellas diziam.

—Então é que têem a cabeça tão dura como tu, porque foi sempre o portuguez a primeira lingua que ouviram, e até lá para a terra dos bacalhaus, para o norte, onde faz um frio de rachar, lá mesmo foi Gaspar Cortereal que primeiro descobriu a Terra Nova. Emfim, meus amigos, depois de ter casado tres vezes, e sempre com princezas hespanholas, morreu em 1521 el-rei D. Manuel, e, verdade verdade, com elle se póde dizer que morreu a grandeza de Portugal.

Succedeu-lhe o filho D. João III, que era o beato mais beato que tem vindo a este mundo. D. Manuel já lá tinha as suas manias, mas, como eu lhes contei,[{106}] quando os de Lisboa desataram a matar os judeus, ou antes os christaos novos, deu-lhes com o basta. D. João III, esse, não descançou emquanto não metteu em Portugal a inquisição. O papa não queria, fazia-se rogado, e D. João III é que insistiu com elle para apanhar essa prenda. Chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir!! Ora, realmente, metter cá um tribunal que, apenas um sujeito se esquecia de ir á missa, ferrava com elle na cadeia, quando não era na fogueira, só lembrava a D. João III. Até os estrangeiros fugiam, e então o resto dos judeus, que ainda por cá havia, e que por amor á nossa terra se tinham feito christãos, com medo da inquisição, se foram safando logo que poderam. E, não contente com isso, introduziu tambem a companhia de Jesus, que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um regimento, e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo. Ora, lá para prégar aos herejes, e aos gentios da India, e aos selvagens do Brazil, eram muito bons, porque não recuavam nem diante da morte, e houve jesuitas, como S. Francisco Xavier, que não ficaram a dever nada aos doze apostolos; mas em Portugal mettiam-se em toda a parte: elles ensinavam, elles confessavam, e estou em dizer que não podia ser bom. Eu não sou contra os padres, nem contra a religião, pelo contrario, mas tambem não se hão de metter em tudo. Ora vejam vocês como[{107}] havia de viver um dos nossos avós d'esses tempos! Os jesuitas a apertarem-lhe o freio, e ao mais pequeno desmando, zás, fogueira da inquisição com elle. Até se fizeram macambuzios os pobres homens, que eram até ahi gente alegre. Não se podia escrever cousa nenhuma, que não viessem logo os jesuitas: Corte-se isto porque parece contra a religião, não se represente aquillo porque se faz troça a um frade, e porque torna e porque deixa. O que é certo, meu amigos, é que, emquanto lá por fóra se andava para diante, e se faziam invenções, e se estudava, nós não passavamos da cepa torta, e o mal que isso fez vão vocês vêl-o.

Na India parecia que ía tudo muito bem, mas via-se que não podia durar muito. Valentes eram os nossos, mas, em vez de fazerem o que Albuquerque queria, em vez de accommodarem os Indios, e de se porem ás boas com elles, não senhor, faziam crueldades que era uma cousa por demais, e o que queriam era apanhar dinheiro. Passavam o tempo, ora em guerra com o rei de Calicut, ora com o rei de Cambaya, ora com o rei de Achem, ora com o rei de Bintam, ora com o rei de Kandy, ora com todos ao mesmo tempo. Isto não era vida. Obravam prodigios de valor, isso é verdade, como por exemplo nos dois cercos de Diu, em que Antonio da Silveira e D. João de Mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso, mas, á força de[{108}] dar cutiladas, o braço ía cançando, e o paiz estava esfalfado. Não havia nem um instante de socego. Se apparecia um governador como D. João de Castro, o da Penha Verde de Cintra, que era honradissimo e justiceiro, os outros não pensavam senão em roubar. Já se pegavam uns com os outros, como fez Lopo Vaz de Sampaio com Pedro Mascarenhas, e quando D. João III, o Piedoso, como lhe chamaram os frades, morreu em 1557, todos previam que isto ía para baixo. O filho mais velho de D. João III morrera ainda em vida do pae, e quem lhe succedeu foi um neto, creança de cinco annos, que tinha o nome de D. Sebastião. Ficou regente a avó, senhora de bastante juizo, que governou bem, mas que em 1562 teve de ceder a regencia ao cunhado, o cardeal D. Henrique, todo dominado pelos jesuitas, e que cercou de padres o principe. O que resultou d'ahi? Resultou que D. Sebastião, que gostava de guerras e batalhas, fez-se ao mesmo tempo beato. Parecia um d'aquelles antigos frades militares, que tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de Portugal. Não quiz casar, e até fugia das mulheres. Não pensava senão em dar cabo dos mouros. Ora, se nós que já tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos na India, que fôramos obrigados a largar umas poucas de praças na Africa, que tinhamos precisado de um grande esforço para salvar Mazagão, cercada pelos mouros,[{109}] nos mettiamos em grandes guerras com elles, aonde iria isto parar! Pois foi o que succedeu. Na India o trabalho era cada vez maior; um governador, chamado D. Constantino de Bragança, parente da casa real, fizera por lá grandes cousas, mas pouco tempo depois juntavam-se quasi todos os reis da India e vinham sobre nós. O que nos valeu foi termos um novo Affonso de Albuquerque, um general de mão cheia, D. Luiz de Athayde, que a tudo acudiu e tudo salvou; mas vocês bem vêem que isto não podia continuar assim. Quando as cousas estavam n'este bonito estado, quando nós tinhamos ás costas a India, o Brazil para que D. João III principiára a olhar, onde precisávamos de nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu gosto, de que se ha de lembrar el-rei D. Sebastião? De ir conquistar Marrocos! Eu já tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado Marrocos, que nos ficava á porta, do que irmos á India que ficava tão longe. Pois sim, mas o que era necessario era escolher. Ou uma cousa ou outra. Mas D. Sebastião, com aquella embrulhada, que elle tinha na cabeça, de idéas religiosas e de idéas guerreiras, não attendia a cousa nenhuma, nem fazia calculos nenhuns. O que elle queria era dar lambada nos mouros, e, apesar dos conselhos de toda a gente, levanta um pequeno exercito, e para o levantar custou-lhe, porque já não havia braços no[{110}] paiz... co'a breca, que elles não chegavam para tudo! e abala-se para a Africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha sido expulso do throno por seu tio!

Ah! meus amigos, aquillo era mesmo um doido que ali ía. A gente gosta de ver um rapaz que tem o sangue na guelra, e que se atira para diante, embora faça asneira, mas é que D. Sebastião estava perfeitamente maluco. Era maluquice a empreza, foi maluquice o modo como a preparou, foi maluquice o modo como a dirigiu. Parecia que Deus, por umas poucas de vezes, o quizera salvar, e elle sempre a atirar comsigo de cabeça para baixo. Emfim, no dia 4 de agosto de 1578, deu-se a batalha á moda de seiscentos diabos, porque nem houve commando, nem houve nada. D. Sebastião atirou-se aos mouros e não quiz saber de exercito, nem de cousa nenhuma. Emquanto poude dar cutilada, deu. A flor da fidalguia portugueza ali morreu, a que não morreu ficou prisioneira. Os soldados fugiram, uns por aqui outros por ali, e, quando a noticia chegou ao reino, imaginem que afflicção! Não se perdera só um rei, perdera-se a corôa, porque não havia herdeiros, e quem subiu ao throno foi o velho cardeal D. Henrique, tio avô do fallecido, que nunca fôra esperto e que estava então meio apatetado. Ainda houve quem dissesse que D. Sebastião não morrera, porque ninguem o vira caír morto, e o cadaver que[{111}] appareceu, e que se disse que era d'elle, estava tão desfigurado que se não podia conhecer. Assim lá ficou D. Henrique a governar, mas para que? Todos sabiam que a corôa era herança que não tardava. Quem a havia de apanhar? Quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de Bragança, por ser filha de um irmão de D. João III, D. Duarte; quem era mais sympathico ao povo era D. Antonio, filho bastardo de outro irmão de D. João III, D. Luiz; quem tinha mais força era D. Filippe II, rei de Hespanha, filho de uma irmã de D. João III, D. Isabel. Ainda havia outros que se diziam herdeiros, mas entre aquelles tres é que a lucta era séria. Ferviam as intrigas. D. Filippe tinha em Portugal um embaixador, e até por signal era portuguez, D. Christovão de Moura, que comprava todos quantos se queriam vender, e bem parvos eram os que não íam ao mercado. As côrtes, chamadas por D. Henrique para decidir a questão, estavam já tão pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas questões, que disseram ao rei que decidisse como quizesse, apesar de berrar muito contra isso um portuguez ás direitas, procurador de Lisboa, e que se chamava Phebo Moniz. O rei não decidiu cousa alguma. Morreu em 1580, e deixou o quartel general em Abrantes, tudo como d'antes. Nomeou governadores do reino uns sujeitos que se tinham já vendido aos hespanhoes, e que de certo íam escolher D. Filippe II.[{112}] Mas, como se demorassem, este não esteve para os aturar, e mandou-nos cá um exercito commandado pelo duque de Alba. Vendo os hespanhoes, o povo virou-se para D. Antonio, prior do Crato e bastardo do infante D. Luiz, e acclamou-o rei. Valente era elle, mas não era mais nada. Quiz resistir aos hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegára em armas. Batido em Alcantara, ás portas de Lisboa, depois de algumas horas de combate, fugiu para o Minho, por onde andou escondido, até que poude safar-se para o estrangeiro. Filippe II entrou socegadamente em Lisboa, e era uma vez a independencia de Portugal.

—O que! estavamos hespanhoes? perguntou furioso o Bartholomeu.

—Estavamos hespanhoes, sim, meu amigo, e eu te vou explicar como é que tinhamos chegado a isso em tão pouco tempo. Em primeiro logar, creio que já sabem que D. João II abaixára a prôa de todo á nobreza, e d'ahi por diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do paço. O povo ajudára o rei a fazer essa obra necessaria, mas o rei, apenas se viu servido, deu-lhe para baixo, e el-rei D. Manuel começou a dizer que os foraes, que eram as leis por que se governavam os concelhos, não estavam muito claros, e para os aclarar, reformou-os, quer dizer, deu cabo d'elles. Em côrtes já se não fallava senão de longe a longe. D'antes, pelo menos,[{113}] para se lançarem tributos novos, sempre se reuniam as côrtes. D. Manuel não quiz que ellas se incommodassem por tão pouco, e, para lhes poupar trabalho, começou elle a deitar os tributos por sua conta. Ora isto é muito bom, emquanto as cousas vão correndo bem. O rei tem ali o seu povo manso como um leão domesticado, com as unhas cortadas e os dentes limados, mas, quando vem as occasiões, o povo mette o rabinho nas pernas e não tuge nem muge. Para mais ajuda, a inquisição concorria para terem todos pouca vontade de se mexer. Os jesuitas, que tanto podiam fazer pela influencia que possuiam, não se importaram para nada com isso. Frades como elles eram, muito ligados entre si, e muito escravos do seu geral que estava em Roma, não tinham patria, a sua patria era a Companhia. Depois, vocês bem vêem que o reino não podia deixar de estar sem forças. Era um saír de gente todos os annos para a Africa, para a India, para o Brazil, que era uma cousa por demais. No meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre. Havia muita gente rica e vadia, mas não havia lavoura, não havia fabricas, não havia nada, o dinheiro entrava por um lado para saír pelo outro. Demais a mais tudo era pandiga rasgada. Os portuguezes vinham do Oriente descançar das suas fadigas. Tinham escravos para o serviço, passavam os dias na amante vadiagem. Não ha cousa que mais deite a perder os[{114}] homens. Por isso D. Filippe e o seu embaixador Christovão de Moura encontraram tudo podre.

Hão de vocês dizer: Pois então, só porque um rei morreu, e só porque se perdeu um exercito, que não era grande cousa, perdeu-se Portugal? É assim mesmo. Faltou o rei, faltou tudo, porque o povo nem já sabia de si, e as côrtes, quando não havia quem mandasse alguma cousa, nem sabiam o que haviam de fazer. Soldados portuguezes, os bons, estavam na India, e não bastavam; os que tinham voltado não pensavam senão na pandiga. Tudo estava alluido na nação portugueza, veio o empurrão de Alcacer-Kibir, foi tudo abaixo, e eu, meus amigos, não vou para baixo, vou para cima que são horas de me ir chegando ao pouso. Domingo continuaremos, porque já agora havemos de acabar, que lá dizer que eu tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo dos Filippes, isso não tenho. Então é que Portugal perdeu a esperança de se levantar.[{115}]