Emfim não se fez isso; os hespanhoes ficaram com a America, e principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos, tanto que foi necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio, dizendo: Para aqui descobrem os hespanhoes, e para aqui descobrem os portuguezes, o que fazia com que um rei de França dissesse depois: Ora sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai Adão que deixou a terra aos hespanhoes e aos portuguezes!
Todos se riram, e o João da Agualva continuou:
—Muito mais provas de juizo deu el-rei D. João II, e felizes seriamos nós se os reis que se seguiram fossem como elle. Na Africa, tratou de chamar a si os pretos, de os mandar baptisar, mas ás boas, e de fazer por ali fortalezas para se assenhorear do commercio. Na Europa então houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei. Os soberanos de Hespanha, todos devotos, mandaram pôr fóra do seu paiz os judeus, que eram, como foram sempre, uma raça trabalhadeira e esperta, que se enriquecia e ía enriquecendo a terra onde vivia. Mas a rainha de Hespanha, lá por beaterios tolos, não os quiz consentir no seu reino, e intimou-lhes mandado de despejo.[{97}] Sempre quero que vocês me digam porque? Porque tinham crucificado Jesus Christo? Mas isso foram uns malandrins de Jerusalem, e nem os filhos tinham culpa do que os paes fizeram, e até os paes de muitos d'elles talvez nem em Jerusalem estivessem n'esse tempo. Porque não acreditavam na religião christã? O peor era para elles. Pois se não se póde salvar quem não for christão, no outro mundo torceriam a orelha, e não era necessario já n'este mundo ir-lhes torcendo pescoço. Porque não comiam toucinho? Tanto melhor para os bons christãos, que sempre ficava mais barata a carne de porco. Mas fossem lá dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos! Corria uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira. D. João II riu-se da devoção dos visinhos, recebeu os judeus na sua terra, e tirou proveito do caso, obrigando-os, em troca do asylo que lhes dava, a pagar-lhe um bom tributo. Elles estavam com a corda na garganta, pagaram com lingua de palmo, ainda que isso lhes havia de custar, porque sempre foram sovinas. Mas, como diz o outro, para judeu, judeu e meio.
—Olhe lá, ó sr. João de Agualva, e então quem diz que a inquisição cá em Portugal queimava os judeus? perguntou o Manuel da Idanha.
—Lá chegaremos, sr. Manuel da Idanha, lá chegaremos. Não ha só muitas Marias na terra, ha tambem[{98}] muitos Joões, e nós então tivemos seis, cada um do seu feitio.
Tudo se paga, meus amigos, e um homem póde ser principe perfeito; quando ultraja a lei de Deus, derramando o sangue de seus irmãos, ha de o pagar com lagrimas que tambem são sangue ás vezes. Tinha D. João II um filho chamado Affonso, a quem queria como ás meninas dos seus olhos. Casára com a filha dos reis de Hespanha, e as festas com que se celebrou o casamento tinham sido das mais pomposas. Morreu, e morreu de um desastre. Quem pôde imaginar a dôr d'aquelle pae! Chorou esse homem de ferro, que tantas lagrimas tambem fizera derramar, chorou lagrimas de sangue, do sangue do seu coração, e, lá nas horas mortas da noite, quando estivesse sósinho a pensar no filho, havia de ver muitas vezes os espectros d'aquelles que matára sem ter piedade da orphandade de seus filhos, como Deus não tivera tambem compaixão da orphandade da sua alma. Morreu quatro annos depois, em 1495, sem poder deixar a corôa a um filho seu, porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha, e assim, altos juizos de Deus! quem lhe havia de succeder, e não é só isso, quem havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da India, que D. João II tão cuidadosamente preparava? Um irmão d'aquelle duque de Vizeu, que elle assassinára, D. Manuel, o Afortunado.[{99}]
Afortunado ou Venturoso lhe chamou a historia, e com rasão, porque não teve senão bamburrice, o que não quer dizer que fosse um palerma, e que não tivesse mesmo bastante tino, mas fazia tanta differença de D. João II como uma larangeira de um carvalho. Encontrou a papinha feita. Estavam preparados os navios para a descoberta da India, poz á frente d'elles Vasco da Gama, e em 1497 chegava Vasco da Gama á India, que era o paiz mais rico d'esse tempo. Mandou atraz d'elle Pedro Alvares Cabral, este chega-se mais para o occidente do que devia ser, e esbarra com o Brazil em 1500; bom! Põe ambos de parte, que lá ingrato como aquelle não havia nenhum, e manda para a India uma esquadra, onde ía Duarte Pacheco, homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade, que eram meios homens, meios deuses, e de quem se contam muitas patranhas, que foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio. Querem vocês saber? Na India havia muitos reis, como ainda hoje ha, apesar que estão agora todos sujeitos aos inglezes. Vasco da Gama tinha chegado a uma terra chamada Calicut, onde residiam muitos mouros, que eram quem fazia n'esse tempo o negocio todo da India. Viram a bolsa em perigo, e não descançaram emquanto não pozeram ao rei de Calicut de mal com os portuguezes. Palavra puxa palavra, elle matou-nos um homem, apanhou uma lição mestra, e de[{100}] vingança em vingança ficámos inimigos para sempre. Mas havia outro rei, o rei de Cochim, que era e foi sempre nosso amigo. D'ahi, barulho entre os dois. Como o rei de Calicut era muito mais poderoso, esperou que não estivessem lá navios nossos, e, sabendo que tinha ficado apenas Duarte Pacheco e mais uns cincoenta portuguezes, disse comsigo: «Agora é que tu m'as pagas.» E arranjou um exercito forte, e marchou contra o pobre rei, nosso amigo. Os soldados de Cochim tinham medo que se pellavam, e fugiam que era um louvar a Deus; mas Duarte Pacheco, mais os seus cincoenta homens, com a sua habilidade e a sua valentia, conseguiu tomar o passo ao de Calicut, e dar-lhe tareias monumentaes. Ó rapazes, pois uma pessoa não se hade ás vezes ufanar de ser portuguez? Quando é que se viu uma cousa assim? Meia duzia de gatos bastaram para dar cabo de exercitos immensos! Eu bem sei que era a disciplina, que eram as armas, que era tambem a fraqueza d'aquelles bananas, que o sol da India faz uns mollengas, mas era necessario que fossem de aço e de ferro, em vez de ser de carne e osso, esses valentes que assim viam, sem descorar, marchar contra elles um exercito formidavel! Era necessario que se tivessem disposto a morrer para não deixarem que fosse pisada aos pés a bandeira de Portugal! E, a final de contas, por muito molles que os outros fossem, sempre eram mil contra[{101}] um, e, com certeza, nenhum dos nossos pensava que saíria com vida de similhante combate. Depois acções d'essas eram mais faceis, não só porque os nossos já tinham tomado confiança em si, e sentiam-se capazes de levar aos pontapés quantos indios houvesse na India, mas tambem porque elles tinham-nos tomado medo; mas isso tudo a quem o devemos senão a Duarte Pacheco? Pois, meus amigos, imaginam vocês que Duarte Pacheco foi feito governador da India, ou teve algum titulo, ou alguma recompensa grande? Qual carapuça! D. Manuel nem mais pensou n'elle, e era tão feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da India um homem como D. Francisco de Almeida, que em toda a parte do mundo seria digno de exercer os primeiros logares.
Com effeito, D. Manuel, que primeiro quizera apenas que os seus seus navios viessem carregados de mercadorias da India, que depois cá se vendiam na Europa, entendeu que devia tomar raizes, e encarregou D. Francisco de Almeida de governar os portuguezes que por lá estivessem, fundando ao mesmo tempo fortalezas. D. Francisco de Almeida entendia, porém, e não deixava de ter rasão, que Portugal era um paiz muito pequeno para estar assim a mandar soldados para a India, e o que elle queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer negocio. Emquanto só teve os indios[{102}] pela prôa íam as cousas bem, mas os turcos, que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho das Indias, começaram a metter-se na dança, e os turcos não eram tropa fandanga, eram gente de quem tremia a Europa. Tambem, quando se encontraram primeiro com os portuguezes, levaram a melhor e até mataram um filho de D. Francisco de Almeida, que o vice-rei adorava. Foi a sua perdição, porque D. Francisco de Almeida não descançou emquanto não vingou a morte do seu estremecido Lourenço. Os turcos levaram uma sova de primeira qualidade, e na India ficou-se sabendo de uma vez para sempre que casta de homens eram os portuguezes.
Pois, rapazes, parecia que d'esta vez D. Manuel se daria por muito feliz em ter no Oriente um homem como D. Francisco de Almeida, que tinha posto os indios a pão e laranja, e dado uma esfrega tal nos turcos que se não atreveram por muito tempo a tornar á India. Enganam-se. Apenas acabou o seu tempo, foi chamado a Portugal, e naturalmente el-rei nem pensaria mais n'elle, ainda que não tivesse morrido no caminho. Mas continuava a ser tão feliz que encontrou, para substituir D. Francisco de Almeida, um homem que ainda valia mais do que elle, porque era o grande Affonso de Albuquerque. Ah! meus amigos, apparecem de vez em quando no mundo uns homens, que são capazes de revolver a[{103}] terra, como os Napoleões e outros assim, Affonso de Albuquerque foi um d'esses.
A respeito das cousas da India não pensava como D. Francisco de Almeida, mas não era porque visse as cousas de outro modo, era porque achára maneira de as concertar. Sim, elle bem sabia que Portugal não podia estar a encher a India de soldados, mas o que elle queria era que os Indios se misturassem com os portuguezes, e, para o conseguir, ao passo que era cruel com os mouros, com os indios era tão bom e tão justo que, depois da sua morte, íam elles resar ao seu tumulo, como quem vae resar ao tumulo de um santo. Escolheu elle tres pontos, em que estabeleceu, para assim dizer, os seus quarteis generaes, e todos muito bem escolhidos: Ormuz, ao pé da Persia; Goa, no meio da India; Malaca, para os lados da China e das ilhas a que se chamava das Especiarias ou das Molucas. Primeiro tomou Goa, depois Malaca que tinha dente de coelho, porque os malaios são levadinhos da bréca, depois Ormuz, e, quando acabou de fazer tudo isto, estava já demittido, e sabendo que ía ser nomeado para o seu logar o seu peor inimigo! Morreu com esse desgosto.