—Estou morto por saber, porque é que chamaram a D. João II o principe perfeito, principiou o Manuel da Idanha no domingo immediato, quando estiveram todos sentados á roda da lareira, porque, emfim, vocemecê já nos fallou n'uns poucos de reis de quem se não póde dizer mal: D. Diniz, por exemplo, D. João I, etc.
—Eu te digo, rapaz, é porque não houve nenhum que percebesse tão bem o seu tempo, nem soubesse tão bem como é que se governa. Era homem de cabellinho na venta, mas só dava cabo de quem lhe fazia transtornar os seus planos, era valente como os que o são, mas, depois de ser rei, nunca mais foi á guerra. Calculava tudo, combinava tudo,[{90}] e, como quem joga bem a bisca, sabia de cór os trunfos, e o que queria era marcar bons pontos, désse lá por onde désse. Subiu ao throno, na firme resolução de acabar com os privilegios da nobreza e do clero. Para isso, como de costume, serviu-se do povo. Chamou côrtes a Evora, ahi entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos fidalgos. Então o rei põe-se no seu logar, e toca a deitar abaixo privilegios. Se vocês querem ver o que é berraria! O primeiro que se levantou foi o duque de Bragança, e esse então metteu-se com os castelhanos. D. João II não esteve com ceremonias, mandou-lhe cortar a cabeça. O duque de Vizeu, seu proprio primo e cunhado, fez-se tambem chefe de conspiração. O mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada, e depois foi tudo raso com o diabo do homem. Prendia uns, desterrava outros, mandava matar este, confiscava os bens áquelle... um inferno.
—Então por isso é que era principe perfeito? perguntou a tia Margarida indignada.
—Ó mulhersinha, espere lá. Diz o proverbio: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Pois eu digo tambem: cada tempo com os seus costumes. O tempo d'elle não era como o nosso. Hoje matar um homem é, com rasão, uma cousa por ahi alem. N'aquelle tempo parecia a todos perfeitamente natural que se castigassem com a morte, mesmo á[{91}] punhalada, todas as conspirações. Ora D. João II só escapou por milagre a muitas que houve contra elle.
Mas D. João II não era homem que se assustasse. Estreiara-se em Arzilla, ao lado de seu pae, e logo mostrára um grande esforço; na refrega de Toro, em Hespanha, foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado, emquanto o pae a perdia pelo outro. Nas conspirações, que se faziam contra elle, mostrou sempre uma coragem por ahi alem, mas tambem não perdoava nenhuma. E tanto fez, tanto fez, que a final todas as cabeças se abaixaram, e quem ficou governando a valer e devéras foi elle.
Eu não lhes digo, rapazes, que approvo todas aquellas crueldades, e que acho bonito que D. João II matasse sem dó nem piedade até os parentes. Conheço que era preciso ter cabellos no coração para fazer o que elle fez, mas que querem vocês? É sina que nunca se fizeram as grandes mudanças politicas sem correr muito sangue. Dizia aquelle engenheiro francez, que aqui esteve em Bellas na obra da agua, quando ás vezes se punha a conversar commigo: «João, não se faz omeleta sem se quebrar ovos.» E dizia bem. Aquillo entre D. João II e a nobreza era guerra de morte. Atiravam á cabeça; eu bem sei que era mais bonito perdoar. Mas, meus amigos, perdoar aos seus inimigos só o fez Nosso Senhor Jesus Christo, e isso bastava para[{92}] que todos conhecessem que elle era Deus e não homem.
Em todo o caso, rapazes, sempre lhes quero confessar que, para gostar deveras de D. João II, preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira toda, e ver o que elle fez por outro lado. Ah! que rei aquelle, rapazes! Nos descobrimentos foi um segundo infante D. Henrique, porque não foi só dizer aos pilotos: «Vão vocês andando por ahi abaixo, e quando toparem a India mandem cá um recado.» Não, senhores! Agarrou em dois judeus que eram homens de sabença, e mandou-os por terra ao Egypto, para que fossem do Egypto ver se topavam a India e se sabiam como é que se podia lá ir ter por mar. Foram estes Pedro da Covilhã e Affonso de Paiva. Ao mesmo tempo não deixára de mandar navios pela Africa abaixo. Um sujeito, chamado Bartholomeu Dias, tanto andou, tanto andou sempre com a terra á esquerda, até que um bello dia, por mais que tocasse á esquerda, não via senão agua: «Mau, disse elle comsigo, o diabo da costa virou de rumo.» Vira elle tambem e dá com a terra que ía para cima em vez de ir para baixo como até ahi. «Eu cheguei ao fim da Africa, disse comsigo o Bartholomeu Dias, eu passei algum cabo sem dar por isso.» E, já todo contente, queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo. Mas a marinhagem estava cançada e quiz por força voltar[{93}] para traz. Não houve remedio, e á volta effectivamente deram com o tal cabo que vinha a ser a ponta da Africa, e apanharam tantos temporaes que Bartholomeu Dias chamou a esse cabo, cabo Tormentorio; mas, quando chegou a Lisboa e contou a D. João II o que succedera, este, que logo percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da India, não quiz para tamanha descoberta um nome de mau agouro, e mudou ao cabo Tormentorio o nome em cabo da Boa Esperança, como quem diz: Agora sim, agora é que me parece que vamos por estrada direita.
Ora hão de vocês saber, rapazes, que por esta occasião vivia em Portugal um sujeito genovez chamado Christovão Colombo, que era homem entendido em cousas de mar, e que se occupava tambem muito de descobrimentos de terras e tal etc. Foi até por isso que elle veio para Portugal, porque isto aqui era a forja, onde, para assim dizer, se fabricavam terras novas, e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para cá assoprar aos folles. Christovão Colombo estivera na Madeira, ouvira fallar em signaes de terra para os lados do pôr do sol, e começára a embirrar que, indo atraz do sol, havia de esbarrar com a India. Fallou n'isso a D. João II, este consultou os sabios, e os sabios desataram a rir. Colombo então foi-se embora e começou a offerecer os seus serviços a quem lhe désse[{94}] uma casca de noz; acceitou-os a Hespanha, depois de massar muito o pobre do homem. Christovão Colombo partiu seguindo sempre para o occidente, e a final deu com uma terra povoada de selvagens, que vinha a ser nem mais nem menos do que a America, emfim um mundo inteiro muito maior que a Europa toda. Ora, tudo isso podia ter vindo para nós, e não nos fazia mal nenhum, se D. João II não cáe na asneira de não acreditar no Colombo, que todos sabiam que era um homem esperto, e de lhe não querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta, elle que tinha navios a rodo por esses portos todos!
—Sim! lá isso! acudiu o Manuel da Idanha coçando na cabeça. Vocemecê diz que o homem era tão espertalhão, mas essa parece-me de cabo de esquadra!
—Achas, meu palerma? Diz um proverbio: Quem adivinha vae para a casinha. E eu já te mostro que outro qualquer, no caso de D. João II, fazia o mesmo. Tu imaginas que Christovão Colombo chegou ao pé de D. João II e lhe disse: Saiba Vossa Alteza (que então ainda se não dava magestade aos reis) saiba Vossa Alteza que ali defronte dos Açores está um paiz muito rico, onde ha muito ouro, e muita prata e muitos diamantes, e, se Vossa Alteza quizer, eu chego ali n'um instante e cá lh'o trago? Estás tu muito enganado. O proprio Colombo nem sabia[{95}] que havia ali similhante paiz. Toda a sua mania era que, sendo a terra redonda, e n'isso tinha elle rasão, indo uma pessoa para o occidente, havia de dar volta e chegar ao oriente. Mas o que elle não sabia é que a terra era tão grande como lhe saíu; e, se não lhe apparece a America, o homem via-se grego, e ainda tinha de comer muito pão antes de arribar, onde elle queria ir, tanto que provavelmente não levava no porão farinha que lhe chegasse. Ora agora, pensem vocês tambem, rapazes, no seguinte: Havia um bom par de annos que Portugal andava a teimar em seguir pela Africa abaixo á procura da India. Teimou, teimou, até que a final chegou ao fim da Africa, e percebeu que a terra seguia para cima, e ía com toda a certeza parar á India. E é exactamente quando se consegue o que se procurava havia tanto tempo, quando se descobre o cabo da Boa Esperança, quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da India, que vem um sujeito ter com o rei de Portugal, que está todo alegre com a descoberta, e dizer-lhe: Faça favor de apagar tudo isso, e de começar outra vez a procurar a India por outro lado. O rei, é claro, mandou-o pentear macacos. Ora agora confesso tambem que se não põe assim no meio da rua um homem como Christovão Colombo. Procurar a India pelo occidente não impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que até ahi se seguira, e nós já tinhamos[{96}] topado tanta terra que não esperavamos, que não era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a Deus e á ventura ver o que o mar dava de si.