Succedeu-lhe um filho pequeno que tinha, e que foi D. Affonso V, e, como D. Duarte era muito amigo da mulher, foi a ella que nomeou regente. Ora, na verdade, tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes reis, como D. Pedro, D. Henrique e mesmo D. João, dar a regencia a uma mulher, e de mais a mais hespanhola, era tolice graúda, por isso o povo não gostou, e as côrtes convidaram D. Pedro a tomar conta da regencia. A rainha, que era levada da bréca, e que nunca podéra ver os cunhados, deu pulo de corça com esta resolução, a que foi obrigada a ceder, e, com o partido que tinha, agitou o reino de tal maneira, que D. Pedro não teve remedio senão tomar providencias, e uma d'ellas foi tirar o filho á rainha, porque o pequeno estava sendo nas mãos d'ella um instrumento de revolta. A final, a rainha foi para Hespanha, mas eu estou convencido, rapazes, que o odio que D. Affonso V sempre teve ao tio veio d'ahi. Ora imaginem vocês! D. Affonso era uma creança n'esse tempo, agarrado á mãe como são todas as creanças; não percebia cousa nenhuma[{84}] de politica nem de meia politica, viu-se arrancado dos braços da sua mamãsinha, que se agarrava a elle a chorar, e arrancado por quem? Por seu tio. Depois, quando fosse maior, podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar um grande homem, que lhe tinha governado o reino como ninguem seria capaz de o governar, que era tão pouco amigo de vaidades, que nem quizera que lhe fizessem uma estatua, mas o rancor da creança nunca se foi embora. Pois o tio, apenas elle chegou á maioridade, logo lhe entregou o governo, sem a mais pequena demora, e foi viver para Coimbra com o maior socego. Apesar de tudo isso, e apesar de ser muito amigo da mulher que era filha de D. Pedro, o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle, e principalmente ás do primeiro duque de Bragança, seu tio tambem, filho bastardo de D. João I; chegou o duque a levantar tropas para ir contra o pobre D. Pedro, que, espicaçado e ralado por todas as fórmas, teve de tratar da sua defeza. Emquanto o duque de Bragança levantava tropas por sua conta e risco, achava o rei isso muito bem feito; apenas o infante D. Pedro juntou alguns soldados para não atravessar esse reino ao desamparo, logo D. Affonso V entendeu que era caso de rebeldia e traição, e marchou contra elle. Na Alfarrobeira, ali ao pé de Alverca, se encontraram as tropas de um e as tropas[{85}] do outro. Não houve batalha, mas travaram-se de rasões os soldados, e, quando mal se precatavam, achou-se tudo embrulhado na bulha, e lá morreu o pobre do infante D. Pedro, tão sabio, tão bom, tão justiceiro.

Quem ouvir isto, ha de dizer que D. Affonso V era um malvado, pois não era; cabeça de vento sim, nunca houve outra igual! Sympathico e bondoso, um mãos-rotas, principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle quanto queriam, enthusiasmava-se todo por cousas que já não importavam a ninguem, e quiz até fazer uma cruzada contra os turcos. Os outros principes christãos não estiveram pelos autos, e vae elle então voltou-se contra os mouros da Africa, e é certo que juntou a Ceuta as praças de Tanger, Arzilla e Alcacer Ceguer. Por isso lhe chamaram o Africano. Emfim, bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa, mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de Hespanha, e, quando lá houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que morrera, se havia de ser D. Isabel que era irmã, se D. Joanna que era filha, o nosso D. Affonso, apezar de já não ser novo, casou com esta, que vinha a ser tambem sua sobrinha, ao passo que D. Fernando de Aragão casava com a outra. D'ahi veio uma guerra levada dos demonios; mas, a final, D. Affonso deu a batalha de Toro, que ficou indecisa, mas foi o mesmo que se[{86}] a perdesse, porque não poude continuar a guerra. De que se ha de lembrar então o nosso D. Affonso V? De ir em pessoa pedir soccorro ao rei Luiz XI de França, que era o mais manhoso de todos os principes, e que não fazia nada sem interesse. Luiz XI andou a cassoar com elle, até que D. Affonso V mandou dizer ao filho, que ficára a governar o reino, que subisse ao throno, porque elle abdicava, e ía para a Terra Santa; mas depois muda de tenções, e, quando já ninguem o esperava, apparece em Portugal. O filho é que não quiz saber de mais nada; entregou-lhe logo a corôa, que D. Affonso acceitou, morrendo quatro annos depois, em 1431.

—Ó sr. João, interrompeu o Bartholomeu, e essa historia de descobrir terras novas tinha parado?

—Qual tinha parado, homem! Emquanto D. Henrique viveu, e só expirou em 1460, quando já D. Affonso V era homem, não pensou n'outra cousa; todos os annos se ía descobrindo mais alguma porção da Africa, e já não havia quem acreditasse em carapetões de estatuas. Os portuguezes, o que faziam era sempre seguir para baixo, até ver se topavam com a India, ou então se davam com um rei que diziam que era christão, e a quem chamavam o Prestes João das Indias.

—E quem era esse rei? perguntou o Manuel.

—Eu depois lhes digo, rapazes, agora não me fallem á mão. O que é certo é que estava já descoberta[{87}] uma boa porção da Africa, e já por lá se fazia muito bom negocio, tanto que D. Affonso V, que andava embrulhado com outras cousas, e que não podia cuidar dos descobrimentos como o tio, arrendou o commercio da costa da Mina a um tal Fernão Gomes, com a condição d'elle continuar a descobrir terras. Felizmente, quem ía subir ao throno era um rei de outra laia, que tinha lume no olho, e que havia de levar as cousas pelo rumo que devia de ser, para gloria do nosso paiz.

Foi D. João II esse rei, e com rasão lhe chamaram o principe perfeito, porque não houve nenhum que entendesse tão bem do seu officio; mas, antes de fallar n'elle, meus amigos, deixem-me vocês explicar-lhes o que é que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia que se chamou de Aviz.

Viram vocês como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza e do clero, e como lhe deram força para que os fidalgos e padres se não fizessem finos. Por isso tambem se póde dizer que foi o povo quem fez rei D. João I, e este nunca se esqueceu d'isso. Comtudo, padres e fidalgos, continuavam a ser muito poderosos, e, se D. Duarte, com a lei chamada mental, e o infante D. Pedro lhes tinham dado para baixo, D. Affonso V quasi que desfizera tudo, porque com elle não havia parente pobre, dava aos fidalgos o que elles queriam, e com[{88}] rasão dizia o filho que seu pae o deixára rei das estradas de Portugal, o que, valha a verdade, não devia ser um grande reino. Ora agora acontecia tambem o seguinte: é que o povo, nas côrtes, estava sendo mais um servo do rei do que outra cousa. Já não podia dizer aos reis: «Toma lá, dá cá.» Já não era cada concelho que mandava um procurador, juntavam-se uns poucos de procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor, e o rei sempre os podia ter mais na sua mão do que á turbamulta dos antigos procuradores. Alem d'isso, os doutores, o que aprendiam nas escolas eram as leis de Roma, o direito romano, e ahi o que se dizia era que o rei podia fazer o que quizesse. O que resultava? Resultava que o clero e a nobreza haviam de levar para baixo, mas que o povo depois... esperasse pela pancada. É o que vocês saberão para o domingo que vem, porque a tia Margarida está a caír com somno, e eu não quero que digam de mim, como de alguns prégadores, que sou bom para quem anda com falta de dormir.[{89}]

SEXTO SERÃO

D. João II.—As côrtes de Évora.—Morte do duque de Bragança.—Morte do duque de Vizeu.—Continuação dos descobrimentos.—O cabo da Boa Esperança.—Christovão Colombo.—Entrada dos judeus.—Morte do principe D. Affonso.—D. Manuel.—Descobrimento da India e do Brazil.—Os conquistadores da India.—Fernão de Magalhães.—D. João III.—A inquisição e os jesuitas.—Decadencia do nosso dominio na India.—D. Sebastião.—A batalha de Alcacer-Kibir.—D. Henrique, o cardeal-rei.—A successão do throno.—D. Antonio, prior do Crato.—Batalha de Alcantara.—Perda da independencia:—Causas da decadencia de Portugal.