—Isso mesmo, porque lá para fallar não havia outro como elle. Mas d'ahi a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua, a lingua das espadas, e n'essa, quem lia de cadeira era Nuno Alvares, que o novo rei fez logo condestavel. Os castelhanos, que tinham ido de cara á banda, voltaram á carga, e d'essa vez com um exercito immenso, porque o D. João I de lá tinha resolvido acabar de todo com o D. João I de cá. Antes de vir o rei com toda a sua fidalguia, já um corpo hespanhol tinha entrado pela Beira dentro, mas em Trancoso levou uma tareia[{77}] de primeira ordem. Não se emendaram e disseram comsigo: Agora é que vão ser ellas. A fallar a verdade tinham rasão. D. João I de Portugal teria, quando muito, uns oito ou nove mil homens, D. João I de Castella não tinha menos de trinta mil, e alem d'isso trazia comsigo peças de artilheria que era a primeira vez que se viam em Portugal. Encontraram-se os dois exercitos em Aljubarrota, que fica entre Alcobaça e Leiria, a 14 de agosto de 1385, grande dia, rapazes! Eu não sei que diabo tinham os nossos, mas parece que os animava um esforço sobrenatural. E elles não eram nenhuns fracalhões, os castelhanos, era tudo gente valente e destemida, mas os nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo. Depois tinham cabos de guerra que sabiam da poda, emquanto os de lá eram valentes, e mais nada. De lá, eram tudo fidalgos muito bem montados, com as suas espadas a luzir ao sol; de cá, gente do povo, soldados de pé, mas que todos queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito, e que tambem com elles queria vencer ou morrer. E por isso Nuno Alvares dizia: Rapaziada, pé terra! e zás! lanças no chão, e venha para cá a fidalguia castelhana, mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro. E não é dizer que não houvesse fidalgos tambem de cá. Oh! se os havia, e dos bons e dos melhores, porque eram todos os que tinham preferido morrer com[{78}] um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e castellos, gente briosa e valente, e aventurosa, que combatia pelo seu rei, e pela sua dama, e pela sua honra e pela sua patria. Tambem, não lhes digo nada, nunca levaram os hespanhoes tão formidavel refrega. Por muito tempo lhes ficou lembrada, e o rei, que fugio a toda a brida para Santarem e de Santarem para a sua terra, não se podia consolar de similhante desastre. D. João I mandou fazer, no sitio da batalha, uma igreja e um convento maravilhoso, a igreja e o convento da Batalha, para agradecer a Deus a sua victoria,—e rasão tinha para isso, porque foi Deus decerto quem deu aos portuguezes o esforço e a galhardia que então mostraram, que, eu, meus amigos, não sou dos que acreditam que Deus se mette n'estes barulhos dos homens, mas quando um povo combate pela sua terra, que é como quem diz quando um filho combate pela sua mãe, então, meus amigos, ha uma cousa cá dentro em nós, que vem a ser a consciencia a bradar-nos que Deus, que é a justiça e a bondade, ha de querer a victoria do que é justo e do que é bom.

—E a padeira de Aljubarrota, sr. João da Agualva? perguntou o Francisco Artilheiro.

—Deixemo-nos lá de padeiras. Eu não sou muito amigo de mulheres que se mettem n'estas danças. A padeira era melhor que amassasse pão. Se é verdade[{79}] o que se diz, quando os castelhanos já íam de rota batida, a padeira foi-lhes no encalço e deu cabo de sete com a pá do forno. Olhem que grande façanha: matar quem vae fugindo! Aquillo era mulher de faca e calhau, e eu torço sempre o nariz a essa gentinha. Vamos adiante. A batalha de Aljubarrota decidio a sorte de Portugal. Ainda durou a guerra muito tempo, ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em Valverde, mas a verdade é que estava tudo acabado. D. João I governou então com socego, casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito boa, D. Philippa de Lencastre, teve muitos filhos que educou muito bem, e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens, chamou muitas vezes as côrtes para ouvir o que ellas tinham que lhe dizer ácerca dos negocios do Estado, e governou tão bem, que se lhe chama, com toda a justiça, o rei da Boa Memoria. Já em idade adiantada, trinta annos depois da batalha de Aljubarrota, sentiu D. João I um appetite de tentar alguma empreza grande. Quem o metteu n'isso foram os filhos, tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter n'alguma cousa que lhes désse gloria. O que haviam de fazer? Foram-se aos mouros. Passaram o estreito, e tomaram Ceuta que fica ali mesmo defronte de Gibraltar. Vêem vocês? Aquillo era uma raça que não podia estar quieta. Emquanto jogavam as cristas com[{80}] os visinhos, ía tudo bem, mas depois? Os aragonezes viravam-se para Italia, os castelhanos lá tinham os mouros granadís, nós o que tinhamos? Os mouros de Marrocos e as ondas do Oceano. Pois foram as ondas e os mouros que pagaram as favas. D. João I tomou Ceuta, e D. Henrique, seu filho, deliberou tomar o desconhecido.

—Ó sr. João, exclamou o Francisco Artilheiro, devo confessar que lá isso é que eu não percebo muito bem.

—Pois eu te explico, rapaz. Julgava-se d'antes que do outro lado do mar não havia cousa nenhuma, ou antes que as ondas lá para longe eram um verdadeiro inferno ou um paraizo tambem, porque uns diziam que tudo para alem eram ilhas de santos e jardins do céu, e outros que eram ilhas do diabo e terras de maldição; que havia umas estatuas encantadas que não deixavam passar ninguem, e um mar de pez que engolia os navios. Ora vocês hão de saber que póde uma pessoa ser muito valente, e ter medo de almas do outro mundo, e de feitiços e do diabo. Ali está o Francisco Artilheiro, que, quando foi na expedição á Africa, se atirou ao Bonga como gato a bofes, que é capaz de varrer uma feira, e que, se lhe disserem que vá de noite ao palacio do marquez, lá ao corredor onde dizem que falla a voz do Roque...

—Tarrenego! exclamou o Francisco Artilheiro,[{81}] um homem é para um homem, mas lá uma alma do outro mundo!...

—Ora ahi está! era o que acontecia aos soldados de D. João I. Com mouros e castelhanos tudo o que quizessem, mas com as aventesmas do mar... arreda! Pois imaginem vocês se D. Henrique não fez um milagre conseguindo que os marinheiros do Algarve, porque elle, desde que poz o fito em querer saber o que o mar escondia, foi-se estabelecer em Sagres, mesmo na ponta do cabo de S. Vicente, conseguindo que os marinheiros do Algarve se mettessem ás ondas, sem medo de phantasmas, nem de avejões. E foram aquelles valentes, que fizeram tão grande no mundo este paiz tão pequeno, e partiram por esses mares fóra, sem saber o que por lá havia, e sempre a tremer da perdição da vida e da perdição da alma, e foram, e encontraram a Madeira e encontraram os Açores, e Gil Eanes dobrou o cabo Bojador, que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas, e, como não encontrou estatuas nenhumas, lá foi tudo atraz d'elle, e, de repente, Portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo ignorado, a costa da Africa toda, com os seus grandes rios, os seus bosques verdes, o seu povo de pretos, como eu vi, n'um theatro de Lisboa, desenrolar-se diante da platéa pasmada um panno pintado com cidades e quintas e ilhas e rios, que era de uma pessoa ficar de boca aberta. Ah! meus[{82}] amigos, podem agora não fazer caso de nós, e podemos nós tambem dizer mal de nós mesmos, mas um povo que assim se atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes, e abre aos outros as portas de um mundo maravilhoso, é um grande povo, digam lá o que disserem.

—E D. João I é que fez tudo isso? perguntou o Manuel da Idanha.

—Não foi elle, mas foi o filho, D. Henrique, que era um sabio, e que a seu pae deveu a educação que recebera; e o grande rei, que salvára Portugal do estrangeiro, teve a gloria, antes de morrer em 1433, de ver começada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu nome e o nome de Portugal.

Succedeu-lhe seu filho, D. Duarte, a quem chamaram o Eloquente, pelo bem que fallava e que escrevia, porque tambem fazia livros como o rei D. Diniz, e livros muito bem feitos. Coitado! não merecia a sorte que teve. Os irmãos, D. Henrique e D. Fernando, quizeram continuar a obra do pae, e foram tomar Tanger. Não o conseguiram, perderam muita gente, e para se salvar o exercito das garras dos mouros, teve de ficar preso na Moirama o infante D. Fernando. Para o livrar era necessario entregar Ceuta, mas o infante D. Fernando, que bem mereceu o nome de Santo que lhe pozeram, não quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa, e preferiu[{83}] morrer atormentado nas masmorras de Fez a consentir que dessem por elle aos mouros uma terra, que tanto sangue nos custára. Tudo isto foram desgostos grandes para o pobre D. Duarte, que morreu, depois de cinco annos de reinado, em 1438, da peste que então assolou o reino, porque não houve desgraça que n'esse tempo não acontecesse.