—Meus amigos, disse o João da Agualva no outro domingo, o que eu agora vou contar ha de parecer assim a vocês grande patranha, e a todos pareceria se não houvesse tantas provas da verdade. É caso de uma pessoa ficar pasmada ver o que fez este paiz só, ao canto do mundo, pequeno como é. Oiçam, pois, rapazes, com attenção. Apenas morreu el-rei D. Fernando, tratou logo D. Leonor Telles de fazer proclamar rainha de Portugal a sua filha D. Beatriz, que era uma pequenota casada com o rei de Castella D. João I, e ao mesmo tempo fez-se regente. O povo, que não queria ser castelhano, ou hespanhol como hoje diriamos, nem que o matassem, começou a levantar-se por toda a parte. Mas[{74}] o que faltava era um chefe. Os filhos de D. Ignez de Castro andavam fugidos por fóra de Portugal, um por isto, outro por aquillo, mas quem estava em Lisboa era um rapaz muito sympathico, filho bastardo de el-rei D. Pedro, que este fizera mestre de Aviz, e a quem D. Leonor Telles sempre tivera muito odio. A elle se dirigiram. O mestre vio que não havia remedio senão fazer o que o povo queria. Toma logo a sua resolução, vae ao paço e mata elle mesmo o conde Andeiro, põe-se á frente do povo de Lisboa, põe no meio da rua D. Leonor Telles, e proclama-se defensor do reino. O povo toma todo, sem excepção, o seu partido, e por todas as provincias; mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de Castella. Entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem, valente como as armas, leal como a sua espada, amigo intimo e dedicado do mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira.
Sabedor do que se passava, desce a Portugal o rei de Castella com um exercito poderoso; mas pára deante de Lisboa já fortificada. Os lisboetas, commandados pelo mestre de Aviz, defenderam-se como homens, e o rei de Castella teve de se pôr na pireza; entretanto Nuno Alvares Pereira, que estava no Alemtejo, ganhava a batalha dos Atoleiros, e começava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de si. Como os concelhos estavam todos com o mestre de Aviz, a força do exercito[{75}] era principalmente infanteria. Pois Nuno Alvares Pereira aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a pé. Formava uma especie de quadrado, ou como é que se chama, com os seus soldados, quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaçar-se.
—Ah! se elles calavam bayoneta, observou o Francisco Artilheiro, não entrava lá para dentro nem um cavallaria só que fosse.
—Não calavam bayoneta, respondeu o João da Agualva, porque era cousa que então não havia, mas fincavam as lanças no chão, e fossem lá entrar com elles.
Acabado o cerco de Lisboa, reuniram-se os dois amigos, e foram conquistar todas as terras de Portugal em que os fidalgos tinham levantado a bandeira de Castella. Ao mesmo tempo reuniram-se côrtes em Coimbra, para se escolher um rei. Ahi teve D. João I outro amigo, advogado de mão cheia, fino como um coral, chamado João das Regras, que foi quem lhe fez ganhar a eleição. Assim, o mestre de Aviz tinha a felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam excellentemente, e cada um segundo o seu officio. Para cousas de penna e parlenda João das Regras, para batalhas e mais bordoada correspondente Nuno Alvares Pereira.
—Mas então as côrtes é que escolheram quem havia de ser rei? perguntou o Manuel da Idanha.[{76}]
—Tal e qual.
—E eram côrtes como as de agora? acrescentou o Bartholomeu.
—Não, senhor, havia os tres braços, como então se dizia, clero, nobreza e povo. Os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos, os fidalgos mandavam os seus e o povo tambem, quer dizer cada concelho mandava o seu procurador. Antes de D. Affonso III, íam só os padres e os fidalgos, depois é que o povo tambem começou a figurar n'essas festas; mas n'estas côrtes, que se reuniram em Coimbra, como muitos fidalgos estavam mettidos com o rei de Castella, póde-se dizer que foi o povo quem escolheu, e que o mestre de Aviz, isto é, D. João I, foi verdadeiramente o eleito do povo.
—E ahi lhe valeu o João das Regras? acudiu o Manoel da Idanha.