—É verdade que sim, e, meus amigos, então é que se viu o amor lá de dentro que elle tinha á sua Ignez. Apenas subio ao throno, os assassinos da[{67}] Castro safaram-se para Hespanha, mas D. Pedro lá fez o seu negocio com o rei de Castella, de fórma que apanhou os criminosos, menos um, Diogo Lopes, que conseguiu fugir. Assim que os teve em seu poder, fez-lhes torturas. A um mandou arrancar o coração pelo peito e a outro pelas costas.
—Credo! exclamou a tia Margarida.
—Por isso lhe chamavam D. Pedro o Cruel, assim como tambem lhe deram o nome de D. Pedro o Justiceiro. Justiça fez elle, porque bradava aos céus a morte de D. Jgnez, mas uma crueldade assim é de se porem a uma pessoa os cabellos em pé! Que mais querem? D. Pedro parece que não pensava n'outra cousa senão na sua Ignez, elle trasladou-a, com um estadão nunca visto, de Coimbra para Alcobaça, onde lhe mandara fazer um tumulo que era mesmo uma lindeza. Elle declarou que tinha casado com ella, e até se diz que a sentou, depois de morta, no throno, e mandou que todos lhe beijassem a mão. Mas isso parece-me patranha, ainda que D. Pedro era capaz d'essas extravagancias e de muitas mais. Porque effectivamente, meus amigos, parece que elle tinha endoidecido com a morte de D. Ignez. Tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante. Era justiceiro, é verdade, mas fazia justiça á doida e á bruta. Outras vezes entrava por essa Lisboa dentro a dançar, muito contente da sua vida. Governava bem, não ha[{68}] duvida, punia pelo povo, abaixava a prôa aos bispos, conservava o reino em paz, e juntava bom dinheiro nos cofres para uma occasião de apuros, mas era ao mesmo tempo umas mãos rotas com os fidalgos, que tornaram a fazer-se finos, como se viu depois.
Foi em 1367 que D. Pedro morreu, e logo subiu ao throno D. Fernando, a quem chamavam o Formoso, de bonito que era. Lá que elle tinha telha, isso é que não padece duvida, porque nunca se viu uma ventoinha assim. Aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja. Primeiro deu-lhe na tonta o querer ser rei de Castella, de mais a mais não tendo geito nenhum para a guerra, e não gostando de batalhas. D'ahi, o que resultou? Gastou o que tinha, levou pasada de crear bicho, e teve de fazer as pazes. Mas vejam vocês que cabecinha! Quando fez guerra a Castella, alliou-se com o Aragão, mandou-lhe para lá bom dinheiro, e prometteu casar com a filha do rei, que se chamava D. Leonor. Faz as pazes com o de Castella, e, sem se lembrar já do primeiro casamento, promette casar com a filha do rei castelhano, que tambem se chamava Leonor. O de Aragão não fez caso, metteu o dinheiro portuguez, que lá tinha, nas algibeiras, e nunca mais deu contas. Mas o peor não é isso, o peor é que D. Fernando tambem não casou com D. Leonor de Castella, porque n'este meio tempo namorou-se de uma dama do[{69}] paço, chamada D. Leonor Telles, e desposou-a! Ao menos n'uma cousa era elle constante, é que não saía das Leonores.
Esta Leonor Telles foi o que se chama uma mulher de truz, bonita como as que o são, manhosa como a serpente, e dando, como a nossa mãe Eva, o cavaquinho pelo fructo prohibido. Quando casou com D. Fernando já era casada com um D. João Lourenço da Cunha, mas lembrou-se á ultima hora de que ainda eram parentes, e o rei arranjou do papa que desfizesse o casamento. João Lourenço da Cunha deu graças ao céu por se ver livre da mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho, e D. Fernando levou D. Leonor Telles para casa. Mas o povo é que não esteve pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto, tanto que el-rei safou-se de Lisboa. Houve mosquitos por cordas por esse reino todo, e a final acabou tudo em paz. D. Leonor ficou sendo rainha, os de Lisboa apanharam para o seu tabaco e D. Fernando não tardou a levar a paga.
O rei de Castella achou que D. Fernando o tratara com tal ou qual sem-ceremonia, e quiz-lhe dar uma lição de bem viver. Veio a Portugal, chegou a Lisboa, entrou por ahi dentro, fez um estrago de seiscentos demonios, e dava cabo da capital se D. Fernando lhe não vem pedir pazes, que, já se vê, custaram caras. Aqui ficámos finalmente em socego,[{70}] e então D. Fernando parecia outro homem. Sabia governar aquelle rapazote, quando as mulheres lhe não faziam andar a cabeça á roda, ou quando se não lembrava de ter outros reinos. Era economico e arranjado. Sabia pôr as cousas no seu logar. Foi elle que cercou Lisboa de fortificações, que depois não serviram de pouco ao seu successor.
Mas, coitado, acertára mal, em todos os sentidos, com a tal D. Leonor Telles, que era mesmo o demonio em pessoa; quando se enfastiou d'elle, tomou amores com um gallego que vivia em Portugal, chamado conde Andeiro. El-rei, entretanto, metteu-se outra vez em guerras com Castella, e pediu auxilio aos inglezes. Oh! rapazes, que tristes tempos foram aquelles! A vida do paço era um desaforo. Estava ali aquella mulher, aquella... não sei que diga, a pôr na cabeça a corôa da rainha Santa Isabel, a corôa que não podéra pôr nos seus cabellos louros a pobre Ignez de Castro, que, apesar de todos os pezares, era mil vezes mais capaz do que essa rainha de contrabando, que andou de um para outro, sem vergonha de qualidade nenhuma! E ainda por cima era malvada! vingativa! e para ella a vida de um homem valia tanto... como... a honra do marido, que é o mais que se póde dizer!
O povo desgraçado, porque tudo se juntava. As guerras com Castella sempre infelizes! os inglezes,[{71}] como sempre, apesar de amigos, muito peores do que se fossem inimigos. Os fidalgos de Castella, que tinham tomado o partido de D. Fernando, tratados aqui á grande! e ainda por cima D. Fernando sem ter filhos, e com a filha unica já casada com D. João I de Castella. D. Fernando, apesar da sua cegueira, já ía percebendo as cousas, e tinha lá por dentro um desgosto que o ralava. Tambem em 1383, tendo apenas trinta e oito annos de idade, esticou a canella, depois de um reinado que podia ter sido muito proveitoso, e que assim foi uma desgraça para todos. E eu tambem me vou chegando para a cama, não sem lhes dizer que houvera mudança completa no modo de viver da nossa gente n'estes ultimos reinados. Os fidalgos tinham levado para baixo, e estavam já em grande parte, por assim dizer, ás sopas dos reis. Os concelhos do povo tinham-se feito fortes, e batiam o pé á fidalguia, e ao clero, principalmente, nas côrtes, em que entravam. O resultado de tudo isso é o que vocês hão de ver de hoje a oito dias.[{72}]
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QUINTO SERÃO
Interregno.—Regencia de Leonor Telles.—Morte do conde Andeiro.—O cerco de Lisboa.—Nuno Alvares Pereira e João das Regras.—As côrtes de Coimbra.—D. João I.—A batalha de Aljubarrota.—Os filhos de D. João I.—Tomada de Ceuta.—Os descobrimentos.—D. Duarte.—Expedição de Tanger.—Menoridade de D. Affonso V.—O infante D. Pedro.—Batalha de Alfarrobeira.—Tomada das praças africanas.—Guerras com Hespanha.—Batalha de Toro.—Ida de D. Affonso V a França.—Continuação dos descobrimentos.