—Foi com os hespanhoes a batalha do Salado?

—Não homem, foi dada até para os ajudar. Já lhes disse, meus amigos, que nós desde o reinado de D. Affonso III tinhamos posto os mouros na rua. Mas os hespanhoes ainda não tinham conseguido o mesmo, os mouros estavam reduzidos apenas ao reino de Granada, mas sempre isso era alguma cousa. Ora agora ali em Marrocos estava, como sabem, a moirama toda. Imaginem que um bello dia o tal miramolim[{62}] de Marrocos, ou como diabo se chamava elle, desaba em Hespanha com o poder do mundo e junta-se ao rei de Granada para darem cabo do rei de Castella. Era este D. Affonso XI, genro do nosso D. Affonso IV. Aterrado com o perigo, pediu soccorro ao sogro, apesar de estar mal com elle; mas o nosso rei, homem ajuizado, vio que a occasião não era para dize tu direi eu, que não era só Castella que estava em perigo, estava em perigo a Hespanha toda; se Affonso XI levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui os mouros de raiz, e tinha de se começar outra vez a pôl-os fóra. Por isso não esperou por mais nada, ajuntou quanta gente poude, e foi em soccorro do genro. O nosso rei era homem de pulso, os nossos soldados tambem eram pimpões. O soccorro não foi nada mau. Na batalha do Salado os mouros levaram uma sova de primeira ordem, e nunca mais os de Marrocos vieram cá metter o nariz d'este lado do mar. D. Affonso IV voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande preza que fizeram.

—E isso de D. Ignez de Castro o que foi, ó sr. João da Agualva? perguntou a tia Margarida. Não foi essa Ignez de Castro que esteve aqui em Bellas, que até ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam de Ignez de Castro?

—Ora adeus, tia Margarida! esteve agora em[{63}] Bellas! quer dizer, eu, como não andei com ella por toda a parte, não sei se por cá passaria alguma vez, mas onde viveu principalmente foi em Coimbra. Era uma hespanhola esta Ignez de Castro, linda como os amores, loura como o sol, e com um pescoço tão bonito, que lhe chamavam o collo de garça. Veio para Portugal como dama da infanta D. Constança que foi mulher do principe D. Pedro, filho de D. Affonso IV, mas o principe parece que gostou mais da dama que da mulher. Tristes amores foram aquelles, rapazes! Ella tinha pelo seu Pedro um fatacaz lá de dentro, que estou em dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do que filho de um rei. A princeza D. Constança morreu, e para isso não deixaria de concorrer a paixão do marido, que, por mais que elle a quizesse esconder, rebentava por todos os lados. Coitada da princeza! tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores. Mas então! vão lá fugir ao seu destino! Pediu a Ignez de Castro que fosse madrinha de um filho que ella teve, porque n'esse tempo haver amores entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre irmãos. Nada! aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende quanto mais agua lhe deitam. Em fim, morreu a princeza, e D. Pedro e D. Ignez ficaram á vontade, porque até ahi tinham guardado respeito á pobre senhora. Casariam?[{64}] D. Pedro assim o jurou depois, mas eu estou em dizer que não, porque para casarem era necessaria dispensa graúda, que o papa não daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o principe quereria. Mas, ou casassem ou não, é certo que tiveram tres filhos, e que o principe D. Pedro não queria saber de mais nada senão da sua loura Ignez.

D. Affonso IV não viu isso com bons olhos. Sabem como elle era. Vivia só para a sua mulher, queria tudo em boa ordem, e não gostava d'essas fraquezas. Os fidalgos tambem não gostavam, mas esses por outras rasões. Tinha D. Ignez muita parentella, e diziam comsigo que, apenas D. Affonso IV fechasse os olhos, eram os Castros que davam as cartas em Portugal. Começaram a ferver as intrigas, e chegaram a aconselhar o rei que, visto que não havia forças humanas que arrancassem D. Pedro á sua Ignez, o melhor era darem cabo d'ella. D. Affonso IV torceu o nariz, mas lá por dentro estava em braza. Ora, imaginem vocês! D. Affonso, no principio da sua vida, tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu pae. Tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com D. Leonor de Gusman. Morria pelo neto, um rapazinho bonito como a aurora, que tinha de ser depois D. Fernando o Formoso. Lembrou-se das amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante[{65}] querida, que talvez até lhe roubassem a corôa. Subiu-lhe a mostarda ao nariz com a teima do filho, e deu ordem aos seus tres conselheiros, Alvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pedro Coelho para que o livrassem de D. Ignez. Ahi vão todos até Coimbra, onde estava muito socegada a triste da rapariga. Ella, apenas suspeitou do caso, veiu com os filhos lançar-se aos pés do rei. O pobre D. Affonso enterneceu-se, mas os conselheiros é que viram o caso mal parado. «Se elle perdôa, disseram comsigo, nós é que pagamos as favas.» Não esperaram que D. Affonso resolvesse as cousas de outro modo. Foram-se á pequena, e, emquanto o diabo esfrega um olho, ferraram com ella no outro mundo!

—Ai que malvados! bradaram todos.

—Isso eram, tornou o João da Agualva. Sim! que eu não desculpo D. Pedro, nem a desculpo a ella. Se uma mulher, só porque gosta de um homem, não está lá com mais ceremonias e passa a viver com elle, sem a benção do padre, aonde irá isto parar? mas tambem matal-a sem mais nem menos, matal-a no meio dos seus filhos, matar uma pobre menina, que não fazia senão chorar, ah! só uns malvados eram capazes de fazer similhante cousa. Por isso tambem, vêem vocês? D. Affonso foi um bom rei, um homem de bons costumes, um valente, tudo quanto quizerem, mas a final de contas perguntem ahi a um pequeno:—Quem era D, Affonso IV?[{66}] Cuidam que elle que lhes responde: Era um bom rei, isto, aquillo e aquell'outro. Não, senhores, diz logo: Foi o rei que matou Ignez de Castro. E como assassino é que a gente o conhece, e no seu manto real não se vê o sangue das batalhas, vê-se mas é o sangue de Ignez! E esta? Se a não matassem, o que dizia a historia? Foi a amante de um rei. Olhem que gloria! E assim? Todos choram por ella, como a tia Margarida, que está ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental.

—E o que fez D. Pedro? perguntou o Manuel da Idanha.

—O que fez D. Pedro? Ah! com os diabos! Imaginem! Elle ainda tinha peior genio que o pae. Apenas soube do que succedera, aquillo parecia um leão ferido. Saltou logo para o campo em som de guerra, e D. Affonso pagou o que fizera ao pae, porque teve tambem o filho revoltado contra si. Correu muito sangue por esse reino, até que emfim se fez a paz, mas D. Affonso IV pouco tempo sobreviveu, morrendo em 1359, dois annos depois da morte de Ignez.

—Subio ao throno D. Pedro, não é verdade? perguntou com muito interesse o Manuel da Idanha.