—Meus amigos, principiou o João da Agualva, corriam os annos, e lá por esse mundo de Christo íam todos abrindo os olhos. Os romanos, como lhes disse, eram um povo que sabia o nome aos bois. Elles faziam estradas, elles faziam edificios que ainda hoje, arruinados, deixam ficar uma pessoa embasbacada, elles tinham escolas, o diabo! Mas, depois, vieram os barbaros dos bosques da Allemanha e da Russia, e zas, tras, catatras, lá se foi tudo pela agua abaixo. Por muito tempo não se pensou senão em pancadaria. Tudo era gente rude, os reis não sabiam ler nem escrever, os povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina, nem deixava de o ser. Mas a pouco e pouco foram-se aclarando as[{56}] cousas, foi havendo estudos, e D. Diniz, que subiu ao throno, depois da morte de D. Affonso III, era já um sabichão. Elle fazia os seus versos de pé quebrado, que a gente hoje quasi que não entende, mas que eram já escriptos n'uma lingua com termos, elle emfim vio que havia escolas por esse mundo onde se ensinava tudo o que então se sabia, e quiz tambem ter uma que foi a universidade de Coimbra. Depois tratou de fazer do reino alguma cousa com geito. Já não tinha que pensar em mouros, e então pensou na lavoura, pensou na marinha, pensou em tudo o diabo do homem! Mandou vir capitães de navios, de Italia, para ensinarem os nossos, e ajudou os navegantes do Porto, que sempre foram gente desembaraçada, a crear uma especie de companhia de seguros, e não se descuidou tambem de dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se não fazerem finos, e dava-lhes de modo que elles não tinham rasão de queixa, porque era sempre com justiça. Ora, por exemplo, d'antes havia uma especie de frades que se chamavam freires militares, que eram, como quem diz, frades e soldados ao mesmo tempo. Em vez de fazerem voto de rezar e de jejuar, faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros. Havia umas poucas de ordens n'esse gosto, a ordem dos Templarios, a de S. Thiago, a de Aviz e outras. Ora, como é de ver, esses templarios, por exemplo, que se fartavam de tomar terras aos mouros,[{57}] com algumas haviam de ficar para si. E depois tinham doações, emfim eram ricos a valer. O que acontecia por cá, tambem acontecia lá por fóra. Succedeu, pois, que um rei de França e um papa acharam excellente apanhar para si essas riquezas todas, e acabaram com a ordem dos Templarios em toda a parte; mas D. Diniz, que era um homem serio, não esteve pelos ajustes, e entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho á custa do seu sangue, e então, como não havia de desobedecer ao papa, abolio a ordem dos Templarios, mas passou todos os bens para outra que pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de Christo.
—Ó sr. João, perguntou o Francisco Artilheiro, esse D. Diniz não era marido da rainha Santa Isabel?
—Era sim, rapaz, e já vou fallar n'essa rainha, que foi tambem uma das bençãos de Portugal n'esse tempo. Era filha do rei de Aragão, e bem se póde dizer que aquella é que foi uma verdadeira santa. Pobre senhora! Não lhe faltaram desgostos, não. Primeiro houve grande bulha entre o marido e um cunhado, D. Affonso Sanches, que embirrou em que lhe pertencia a corôa, apesar de ser mais novo; depois, e isso foi o peor, o filho, que veio a ser D. Affonso IV, revoltou-se contra o pae, e porque? Porque el-rei D. Diniz, que era frecheiro, e que se fartou de[{58}] ter filhos bastardos, parecia que olhava mais por elles do que pelos proprios filhos do matrimonio. Imaginem o desgosto da rainha! Primeiro porque emfim não havia de gostar muito de ver o marido sempre ao laré com esta e com aquella a arranjar filhos por fóra de casa, e depois por ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho. E ainda por cima o rei desconfiou que ella ía de accordo com o filho, e chegou até a tratal-a mal, e a mandal-a saír da côrte. Pobre senhora! aquillo era o que ali estava. Ella tudo supportou com resignação—as infidelidades e as injustiças do marido, só o que queria era ver tudo em paz. E sempre o conseguio. Tanto pediu, tanto chorou, que o filho e o pae vieram ás boas. Mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas, e o D. Affonso, que era um vivo demonio, torna á pancadaria com o pae. Pois senhores, a batalha estava para ser aqui ao pé de Lisboa, no Campo Grande; mas quando já começavam á lambada, apparece no meio d'elles a boa rainha, que foi mesmo o anjo da paz, e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu a levantar uma lança. Oh! rapazes! digo-lhes que até me parece que não era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse! Pois então se aquella não fosse santa quem é que o havia de ser? Dizem que mudava o ouro em rosas, e rosas em ouro. Isso creio eu, que aquellas bentas mãos haviam de mudar[{59}] em flores tudo em que tocassem, porque eram, como o outro que diz, mãos puras e boas, como a aragem de maio! Mas milagres maiores fazia ella ainda, porque as lagrimas que chorava em segredo caíam depois sobre a cabeça do pai e do filho como orvalho de paz e como chuva de amor! Sim! Sim! continuou o bom do João da Agualva, com voz tremula, e meio a chorar, digam lá vocês que ella não mudava tudo em que tocava em rosas, quando agora mesmo, que diabo! só de fallar n'ella, parece que até as palavras na minha bôca se estão mudando em flores!
—Ai! a minha rica Santa Isabel! exclamou a tia Margarida, pondo as mãos, n'um enlevo. Coitadinha da minha rica santa que foi logo casada com um homem tão mau!
—Não era mau, não senhora, tornou o João da Agualva, foi até um dos melhores reis que nós tivemos, mas como elle ás vezes lá escorregava o seu pedaço, e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada, bastou isso para que o povo começasse a inventar cousas, que elle que era um sovina, um desconfiado, um unhas de fome, e até os pintores, quando fazem o quadro do milagre das rosas, põem-n'o com uma carantonha de metter medo, que ninguem dirá que está ali o rei poeta, o rei a quem chamavam o pae do povo, o rei que não quiz roubar os templarios, o rei que fundou a universidade[{60}] de Coimbra, o rei que tanto se desvelou pelo bem do paiz! E que as injustiças, por mais pequenas que sejam, sempre vem a pagar-se, e D. Diniz, esses peccados que teve, pagou-os bem caro, primeiro com a revolta de seu filho, depois com a injustiça do futuro, e agora vão vocês ver como o filho tambem pagou o que fizera ao pae, porque em 1325 morreu el-rei D. Diniz e subiu ao throno seu filho D. Affonso IV, a quem chamaram o Bravo.
—Ora vamos lá a ver o que fez esse senhor, disse uma voz.
—D. Affonso IV, meus amigos, tinha muito boas qualidades. Era, por exemplo, um homem de muito bons costumes, e foi isso até que o levou a praticar uma acção... emfim, depois fallaremos. Era homem serio, mas arrebatado e vingativo. A primeira cousa que fez, assim que subiu ao throno, foi vingar-se dos irmãos, por cuja causa tivera as bulhas com o pai. D'ahi guerra. Quem acudiu? A rainha Santa Isabel.
Casou uma filha com o rei de Castella, Affonso XI. Este, que era do feitio de D. Diniz, começou a largar a mulher e a metter-se com uma tal D. Leonor de Gusman. D. Affonso IV, que ficára embirrando deveras com esses arranjos depois das turras com o pai, começou a criar má vontade ao genro, e zas, toma que te dou eu, ao primeiro pretexto que teve, ahi começam as bulhas. Foi uma guerra de cá[{61}] cá ra cá, que não prestou para nada, mas que sempre fazia mal ao povo. No mais seguiu á risca o exemplo do pae. Tratou do povo, teve os fidalgos muito na mão, mais os padres tambem. E então com esses não foi lá só por causa das terras a que deitavam a unha, foi tambem por causa dos maus costumes, porque elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que D. Affonso IV lhes não levou a bem. Por isso apanharam uma vez uma rabecada, n'uma carta que D. Affonso escreveu ao papa, que foi de ficarem de cara a uma banda.
—Bem feito! acudiu a tia Margarida. Esse rei sim! esse é que me quadra. Bem se vê que era filho da rainha Santa Isabel!
—Espere lá, tia Margarida, não falle antes de tempo que, como diz o outro, até ao lavar dos cestos é vindima. Houve no reinado de D. Affonso IV duas cousas famosas: primeiro a batalha do Salado, depois a morte de D. Ignez de Castro.