—Fabula é assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem gente, e pelo que elles dizem tira a gente... sim... é como diz o outro [{49}] pelos domingos se tiram os dias santos... Eu lá, a estas explicações, não se póde dizer que seja um barra, mas em fim, em eu contando o caso, logo vos apercebem.

—É isso mesmo, tio João, conte lá, disse o Bartholomeu.

—Uma vez as rãs foram ter com Deus Nosso Senhor e pediram-lhe um rei, e Deus Nosso Senhor, que estava de maré, não quiz abusar das pobresinhas, e atirou-lhes para o charco um cepo; mas o cepo não fazia nada, andava á tona da agua, para aqui e para acolá, as rãs não lhe tinham respeito nenhum, e saltavam n'elle, qual debaixo qual de cima, e o cepo sempre um paz d'alma, que tanto valia terem rei como não o terem. Vae então as rãs voltaram a Deus Nosso Senhor, e disseram-lhe d'esta maneira: Dê-nos Vossa Divindade um rei que se veja, um rei que nos governe.—Pois então ahi vae um rei como vocês querem, respondeu Nosso Senhor, e atirou-lhes para o charco uma serpente, e a serpente, a primeira cousa que fez, foi engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas, e depois outras e outras, de fórma que as pobres rãs já se não atreviam nem sequer a coaxar para que sua magestade não desse com ellas. Percebem vocês agora porque é que o papa podia contar esta historia aos bispos que íam ter com elle?

—Percebo eu, acudiu logo o Manel da Idanha.[{50}] É que elles não descançaram emquanto não pozeram fóra um rei que era um paz d'alma, um cepo, o D. Sancho II, e foram buscar outro rei que era uma serpente e que deu cabo d'elles que foi um regalo.

—Ora, tal qual, sô Manel. Com gente assim é que eu me entendo. D. Affonso III bem se póde dizer que era uma serpente, porque as serpentes são manhosas, e elle tinha manha a valer. Mostrou-o em tudo, até no modo como se assenhoreou do Algarve, que era só o que faltava para Portugal chegar ao mar pelo lado do sul. Tomou-o aos mouros, e isso foi obra de pouco tempo; mas o rei de Castella começou a berrar que o Algarve lhe devia pertencer a elle. D. Affonso III nunca lhe disse o contrario, mas foi arrastando a entrega, e depois aproveitando tudo, de fórma que ás duas por tres estava senhor do Algarve, e, quando D. Affonso III morreu, que foi a 16 de fevereiro de 1279, estava Portugal completo e seguro, e, visto que chegámos ao fim d'esta primeira parte, parece-me que o melhor é irmos dormir, que para o outro domingo continuaremos.

—Mas ó sô João, disse o Manel da Idanha, já agora, faça favor, não deixe ir a gente embora, sem nos explicar uma cousa. Vocemecê diz que o rei, para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos, começou a fazer concelhos por dá cá aquella palha, e lá[{51}] isso é que eu não percebo muito bem. Então que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o não haver concelhos?

—Pois tem rasão, sô Manel da Idanha, e bom é que essas cousas fiquem explicadas, porque a mim parece-me cá no meu modo de ver que o que nos importa a nós, que somos do povo, não é tanto saber as batalhas que se deram, e mais os reis que houve; o que nos importa é saber como é que viviam os nossos paes, e como se governavam e cousas e tal. Ora pois, saibam vocês que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos, não como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros, mas faziam parte das terras que cultivavam, e com ellas passavam de dono para dono. Isto foi melhorando, e os servos passaram a ser gente livre, mas sem ter terras suas; pagavam foros e foros pesados, os senhores das terras eram os reis, os nobres, os bispos e os mosteiros. As terras dos reis chamavam-se terras da corôa, as dos fidalgos e as da igreja coutos, honras e behetrias. Ora os fidalgos, que só tinham obrigação de servir o rei na guerra e não pagavam mais nada, ou por herança de seus paes, ou por doações dos reis em recompensa dos seus serviços, íam mettendo em si o paiz todo, já se vê de embrulhada com os padres; e os reis pouco tinham de seu, porque, demais a mais, fidalgos, bispos e conventos apanhavam tudo quanto[{52}] podiam, o que se lhes dava e o que se lhes não dava. Por isso D. Affonso fez as taes inquirições, quer dizer, obrigou todos a porem para ali os seus titulos, para se saber se tinham as terras com direito ou sem elle, estabeleceu mais as famosas confirmações que punham a fidalguia sempre na dependencia da corôa, porque cada novo rei confirmava ou não confirmava as doações dos outros, e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras. E vae o povo o que fazia? Sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos padres por qualquer modo e feitio, formava-se um concelho. Então continuavam a pagar tributo, e serviam nas guerras, mas não estavam sujeitos a ninguem, governavam-se elles por si, e tinham as terras muito suas. Ora, como os reis é que os podiam ajudar a ver-se livres da fidalguia, chegavam-se para elles, e os reis, que tinham nos concelhos gente que tambem ía á guerra e que lhes pagava tributos, encostavam-se para esse lado, para terem quem lhes valesse quando os barões ou os bispos se faziam finos. Aqui tens tu explicado pela rama como cada concelho, que se formava, era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaças dos fidalgos.

—Muito obrigado, sô João da Agualva, tornou o Manel; mas sempre lhe digo que quem não sabe é como quem não vê. Ora quem me havera de dizer que[{53}] esta historia de ter uma terra, um pelourinho no meio da praça, era de tanta vantagem cá para o povo! Pois até domingo, e tomára eu que passasse depressa a semana porque divertimentos como este é que ha muito tempo a gente não apanha.[{54}]
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QUARTO SERÃO

D. Diniz.—A universidade de Coimbra.—Os Templarios.—Santa Isabel.—D. Afonso IV.—A batalha do Salado.—Morte de Ignez de Castro.—D. Pedro I.—D. Fernando I.—Leonor Telles.—Estado de Portugal no fim do reinado de D. Fernando.