—Era um rei fraco, e, como se costuma dizer, não era nem para si nem para os outros. Até a mulher não fez caso d'elle, porque as mulheres são assim: em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas, não fazem caso nenhum, e ás vezes de quem gostam é de quem lhes chega um calor ao corpo, como o outro que diz.

—Vae-te excommungado, bradou indignada a tia Margarida. Se um homem me batesse, eu até parece que era capaz de lhe arrancar os olhos.

—Pois sim, tia Margarida! não digo menos d'isso. Mas a rainha D. Mecia não era do mesmo parecer, e pagou bem as pieguices de D. Sancho!... Só de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraçado rei. Um foi o alcaide de Celorico, que até dizem que fez uma partida com graça. Estava-o cercando D. Affonso, e elle já não tinha nem uma migalha de pão, n'isto passa uma aguia por cima da praça com uma truta no bico, e deixa-a cair dentro da villa. O alcaide, em vez de a comer, manda-a cosinhar muito bem, e envia-a de presente aos cercadores.[{46}] D. Affonso, vendo que na praça havia petiscos d'aquelles, entendeu de si, para si que estava perdendo o tempo e o feitio, e foi-se embora. Póde ser que isto seja patranha, mas o que é verdadeiro, sem tirar nem pôr, é o caso de Martim de Freitas. Esse era alcaide de Coimbra, foi cercado tambem, não se rendeu. Disseram-lhe que já D. Sancho morrera, e que por conseguinte era D. Affonso o seu natural successor. Não acreditou. Affirmaram-lhe que morrera em Toledo. Pediu para ir ver. Deram-lhe um salvo conducto, e Martim de Freitas, mettendo na algibeira as chaves de Coimbra, foi de passeio até Toledo. Mostraram-lhe o tumulo do rei, mandou-o abrir; mostraram-lhe o caixão, quiz ver o corpo; e ao ver emfim o pobre cadaver do seu rei, que assim morrera aos trinta e sete annos, longe da sua terra e longe dos seus, ajoelhou e poz as chaves da cidade nas mãos do rei que lh'as entregára; depois, tirou-as d'essas mãos já frias que as não podiam segurar, e partiu para Coimbra, entregando-as ao novo rei, que louvou muito a acção.

—E tinha rasão para isso, tornou a tia Margarida, que estava sendo agora a interruptora, mas com o tal rei novo é que eu não engraço nada. Olhem que irmão! Sempre tinha uns figados!

—Não era muito boa rez, não, tia Margarida, mas então n'este mundo não são só as boas pessoas que servem. Que D. Affonso se importava tanto[{47}] com a familia como eu me importo com a familia do imperador da China, é o que não tem questão, mas que foi um grande rei, isso tambem é verdade.

—Era fresco o tal rei, que assim fazia guerra ao irmão sem mais nem menos!

—Ha mais exemplos d'isso, tia Margarida, e não vão elles tão longe que uma pessoa se não possa lembrar. Mas olhe que não param ahi as maldades de D. Affonso. Tambem não fez caso da mulher, a tal condessa de Bolonha, que nunca foi capaz de pôr pé em Portugal, e casou, em vida d'ella, com uma filha do rei de Hespanha.

—E ainda você o gaba, sr. João? perguntou a tia Margarida. Sabe o que eu lhe digo? Parece-me que você é tão bom como elle!

—Olhe, tia Margarida, não me rogue você nunca outra praga, que lá com essa não me hei de eu dar mal. O que lhe disse é que o sr. D. Affonso III foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo, e sabe vocemecê porque? Porque era homem de cabeça, e o que succedera com elle não tinha caído em cesto roto. Elle disse comsigo; Estes patifes d'estes fidalgos e d'estes bispos são capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu irmão. Ora, eu sósinho não posso com elles. A quem me hei de encostar? Olhou em torno de si e vio o povo, o povo em quem ninguem fallava, e que era a final de contas quem pagava[{48}] as custas dos barulhos entre os grandes, o povo que pagava tributos a toda a gente, e que mesmo quando vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes, que eram para assim dizer as suas leis, mesmo então era ralado pela fidalguia. E Affonso III disse comsigo: Ora ahi está quem me serve. E desata a fazer concelhos, e, quando reuniu côrtes que até ahi eram só de fidalgos e padres, chamou tambem procuradores do povo, e favoreceu o mais que poude o seu negocio, e deu-lhes socego e cousas e tal, de fórma que depois poude dar para baixo nos prelados, que berravam pelos contractos que tinha diabo, mas D. Affonso III, que era finorio, abanou-lhes as orelhas. E que os papas tinham deposto não só o rei D. Sancho II, mas tambem um imperador da Allemanha, de modo que aos chefes dos estados já ía cheirando a chamusco, e principiaram a fazer parede contra o papa. Assim os bispos, que levavam tapona de D. Affonso III, íam a Roma fazer queixas ao papa, e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma fabula que lhes vou contar a vocês tambem.

—Conte lá sr. João da Agualva, exclamou o Manel da Idanha, ainda que eu, a dizer a verdade, não sei lá muito bem o que venha a ser isso de fava ou fabula ou o que é.