O filho mais velho de D. Sancho, que veiu a ser rei depois d'elle, não se parecia muito, valha a verdade, nem com o pae, nem com o avô, mas olhem que nem por isso foi menos util cá ao nosso paiz. É o que eu digo. Cada qual tem a sua tarefa. Uns cavam, outros semeam, outros põem fóra os pardaes e arrancam o joio, que podem dar cabo da ceara. Foi esta a tarefa de D. Affonso II. Ora vêem perfeitamente que, se este Portugal tão pequeno se começasse a dividir, pedaço para aqui, pedaço para acolá, ía-se tudo quanto Martha fiou. D. Sancho, que tivera uma sucia de filhos, pensára mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a conservação do reino. Por isso no testamento era umas mãos rotas. Esta e aquella villa para o senhor infante fulano, esta e aquella cidade para sicrano, e terras para este, e terras para aquelle. D. Affonso II arrebitou a venta, e disse d'este modo: Então vamos a saber, e eu com que fico? E ahi começa á bulha com as irmãs e com os fidalgos. Andava tudo em polvorosa com elle. Os fidalgos, por exemplo, tinham recebido de D. Affonso e de D. Sancho esta ou aquella terra, mas íam-se fazendo finos, e por sua conta e risco íam apanhando mais alguma,[{40}] os frades então nunca chegaram á cabeceira de um moribundo que não apanhassem algumas terras de bom rendimento. Isto assim não póde ser, berrava D. Affonso II, ás duas por tres fico a olhar ao signal. E elle ahi vae por essas provincias fóra, a obrigar os fidalgos a pôr para ali os titulos das suas propriedades, declarando que não valiam senão os que elle confirmasse, e foi a isso que se chamou confirmação. Ao mesmo tempo prohibia ás corporações religiosas que tivessem mais terras do que as que tinham. Emquanto ao testamento de D. Sancho I, cumpriu só o que lhe parecia bom, e, como as irmãs refilassem, houve pancadaria a menos de real.
—Então, por esse andar, os mouros deviam ter vida folgada com elle? observou o Francisco Artilheiro.
—Lá isso é verdade, e tanto assim que, quando se tomou Alcacer do Sal, os cruzados, que nos ajudaram, e que nunca pozeram a vista em cima do soberano, imaginaram que era uma rainha que governava em Portugal; mas, meus amigos, olhem que o nosso paiz não lhe deve menos por isso. Se as infantas começam a puxar para um lado, os fidalgos a puxar para o outro, e ainda os frades a arrancar tambem as terras, n'um abrir e fechar d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos, e adeus Portugal. Mas o gordanchudo do Affonso II, apesar de se[{41}] não importar para nada com os mouros, tinha cabellinho na venta; e por isso os frades foram prohibidos de ter mais terras, as infantas tiveram de pôr para ali as cidades que o pae lhes tinha deixado, porque D. Affonso II disse-lhes que a respeito de corôa em Portugal não havia senão uma, e finalmente os fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e mercê real. De fórma que, a 25 de março de 1223, quando morreu apenas com trinta e seis annos de idade, Portugal era pequeno, mas estava todo na mão do rei, o que já era grande façanha.
—E o filho foi pelo mesmo caminho, sr. João? perguntou o Manuel da Idanha.
—Ora, meu amigo, eu te vou dizer o que succedeu ao filho, e por aqui tu verás se o que eu acabo de dizer não é verdade, e se não ha na historia exemplos para tudo. O filho era creança, quando subiu ao throno, por conseguinte foi necessario haver regencia. Chamava-se Sancho o pequenote, Sancho II, por alcunha o Capello, porque em creança andara com um capuz de frade, lá por promessa da mãe, ou cousa assim. Quem ficou com o governo foram os ministros do pae, e, ainda que eram homens de truz, sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei. De fórma que toda aquella nobreza e fradaria, quando se viu assim á solta, livre da mão de ferro de D. Affonso II, começou[{42}] a alvorotar-se, e os ministros, para os terem quietos, íam dando o que elles pediam. As infantas apanharam as cidades, os frades foram juntando terras ás que já tinham, e parece que o rei andava umas vezes nas mãos de uns, outras vezes nas mãos de outros. Pouco se sabe d'aquelle tempo. Ia pelo reino todo uma confusão de seiscentos demonios. O que é certo é que, quando D. Sancho II chegou á maioridade, estava já tão costumado a não ser rei que não soube puxar pelos seus direitos. E não era que elle fosse fraco. Pois não! pelo contrario! Era da raça do avô, não estava bem senão a cavallo e com os mouros de volta. Tomou uma boa parte do Alemtejo e do Algarve, mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo. Vêem vocês? Para uma pessoa governar não basta ser um valentão. Ás vezes um porta-machado, com umas barbaças por ahi alem, anda em bolandas nas mãos de um creançola, outras vezes uma fraca figura faz andar um regimento ali direitinho que nem um fuso. D. Affonso não queria nada com os mouros, o que o não impedia de governar como um homem; para D. Sancho as batalhas eram o pão nosso de cada dia, e em Portugal todos governavam menos elle. Cousas da vida! Como os fidalgos faziam o que lhes dava na cabeça, e os frades tambem, e os bispos a mesma cousa, parecia que deviam estar todos muito satisfeitos. Mas não succedia assim. Os[{43}] bispos queixavam-se dos fidalgos, estes queixavam-se dos frades, e todos do rei, os frades porque não reprimia os bispos, os bispos porque não tinha mão nos fidalgos, os fidalgos porque não puxava as orelhas ao clero. Quando elle saltava nos mouros, ainda as cousas não corriam mal. A fidalguia gostava d'aquillo, íam todos atrás do rei, e não se pensava em mais nada. Mas, quando uma hespanholita, chamada D. Mecia Lopes de Haro, caiu em graça ao rei, que casou com ella, e que passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha, lá se foi tudo quanto Martha fiou. A desordem excedeu todos os limites, e os bispos foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a corôa a D. Sancho II. O papa, que era Innocencio IV, pulou de contente com o pedido. Era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava as corôas n'este mundo, e que vinha a ser portanto o rei dos reis. Estava em França n'esse tempo um irmão de D. Sancho II, chamado D. Affonso, que saíra de Portugal para ir correr terras, encontrára em França uma condessa de Bolonha, viuva, e já durazia, ao que parece, que gostou d'elle e com elle casou, levando-lhe o condado em dote. Ora o tal condado era uma especie de reino, sujeito ao rei de França, que n'esse tempo era o rei santo que elles tiveram, a saber S. Luiz.
—S. Luiz rei de França, interrompeu a Margarida,[{44}] é uma igreja que fica ali para as bandas do Rocio.
—Pois é uma igreja e foi um rei, tia Margarida, respondeu o João de Agualva, como Santa Izabel é uma igreja que fica ali para as bandas da Estrella, o que a não impediu de ser tambem uma rainha e rainha de Portugal.
—Isso é verdade! confirmou a tia Margarida.
—Pois então, como lhes ía dizendo, reinava S. Luiz em França, e D. Affonso, seu vassallo, por ser conde de Bolonha, fôra com elle á guerra, e déra provas de ser homem desembaraçado. Lembraram-se d'elle para rei, e D. Affonso, que era ambicioso, acceitou. Os bispos e os fidalgos disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que tivessem ali no throno, e o papa entendeu tambem que aquillo era «senhor mandar, preto obedecer». Combinou-se tudo. D. Affonso prometteu quanto quizeram e ahi vae elle caminho de Portugal, fingindo que ía para a Terra Santa. Desembarca e principia a guerra civil. Tambem se não sabe muito do modo como as cousas se passaram. Parece que foi uma guerra levada do diabo como são sempre as guerras civis, queimaram-se villas e cidades, arrasaram-se muitas cearas, ficou muita gente na miseria, e o pobre D. Sancho viu-se abandonado por todos, dizem até que pela mulher, que fôra, a final de contas, o motivo de todas aquellas cousas.[{45}] Houve só um ou outro que se lhe mostrou fiel. D. Sancho teve de saír do nosso paiz, e foi para Hespanha, onde morreu em Toledo apenas com trinta e sete annos.
—Pobre do homem! acudiu compassiva a tia Margarida. Então que mal tinha elle feito áquella gente toda?