—Meus amigos, continuou o João da Agualva, no governo como na lavoura ha tempo para tudo, agora cava-se e depois semea-se. Primeiro compra-se a terra e depois é que se amanha. Pois assim foi em Portugal; D. Affonso Henriques ou D. Affonso I conquistára, D. Sancho tratou de povoar. Por isso a historia chamou conquistador ao primeiro e povoador ao segundo; e olhem que isso não quer dizer que D. Sancho não fosse tambem um guerreiro de truz. Tó carocho! Já na vida do pae elle dera que fallar. Apenas o pae morreu, começou elle a namorar uma terra do Algarve, que hoje está bem decaída, mas que n'esse tempo era, por assim dizer,[{37}] a Lisboa lá do sul—Silves. Não se lhe mettia dente, porém, com facilidade. Para ir lá por terra, era custoso como o demonio, para ir por mar, é de saber, meus rapazes, que o sr. D. Sancho I ainda não se lembrára de comprar nem a fragata D. Fernando, nem esse navio com que andam por ahi sempre os jornaes aos tombos, e a que uns chamam o Pimpão e os outros o Vasco da Gama.
Uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador.
—Mas, meus amigos, isto de Portugal ficar no caminho da Palestina para os christãos que vinham lá das terras do norte, foi uma verdadeira pechincha. Descançavam aqui e sempre havia por cá algum biquinho de obra. Foi o que succedeu tambem d'esta vez. D. Sancho apanhou uma frota de cruzados...
—Novos? perguntou o Zé.
—Novos eram elles, que não costumavam vir para a guerra os carecas como tu; mas é de saber que se chamavam cruzados aos christãos que tinham ido tirar o sepulchro de Christo das mãos dos infieis, e que depois o defendiam. D. Sancho apanhou pois uma frota de cruzados, e disse-lhes d'esta maneira:
«—Vocemecês é que me podiam fazer um favor.
«—Se estiver na nossa mão!...
«—Lá isso está. É simplesmente acompanhar-me[{38}] ali a baixo a Silves, e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que lá estão dentro. Eu fico com a cidade, e os senhores levam as riquezas que se apanharem.
«—Vá de feição.
E foi. Tomou-se Silves, tanto mais que lhes ficava na estrada, e não tinham de torcer caminho. Mas D. Sancho não poude continuar com essas funçanatas, porque os mouros cá da peninsula, que começavam a estar assim esmorecidos, receberam de repente uns reforços da Moirama, e... não lhes digo nada, vieram outra vez por ahi acima que parecia que tornava a haver invasão. Foi uma torrente que levou tudo adiante de si. O Tejo tornou a ser a fronteira de Portugal, e apenas no Alemtejo uma terra ou outra surgia ainda, como uma ilha, com a bandeira portugueza, d'entre as ondas da mourisma. Então D. Sancho pensou que primeiro que tudo era necessario tratar do que era seu, e começou n'uma lida abençoada: elle mandou vir gente do norte da Europa para povoar os nossos campos desertos, elle edificou, elle fez castellos, elle cuidou emfim de tudo, e não se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha muita contemplação por elles, emquanto se limitavam ás suas rezas, mas que lhes não permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios do estado. A final, este bom rei morreu, menos velho que o pae, em 1212. Tinha sido[{39}] casado com uma princeza chamada D. Dulce, filha do conde de Barcelona. De fórma que aqui temos pois já duas rainhas de Portugal, D. Mafalda e D. Dulce.