—Nenhuma, bem sei! mas elle é que ficára por fiador. Outro seria que dissesse: Eu quiz, mas não pude. Elle foi mais franco e disse: Não pude e não quiz. O interesse da nação oppunha-se a isso, mas a minha vida ha de resgatar a minha palavra, e não se fundará n'uma deslealdade a nova monarchia.
—Aquillo é que eram homens! murmurou o Manuel da Idanha.
—Espera que tu vaes ver o que era um homem. Este Affonso Henriques digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino. Não parava um instante. No principio do governo, andou sempre á bulha com o primo, e com os gallegos, e tudo era ver se passava o Minho; mas um bello dia olhou para o sul, e percebeu que para ali é que havia muito que fazer. Os mouros começavam a dar signal de si, e[{31}] a romper de novo por ali acima. Em 1139, Affonso Henriques vae só n'uma galopada até ao Alemtejo, derrota os mouros em Ourique, e volta para casa. A respeito de Ourique tem havido mosquitos por cordas. Diz-se que appareceu Nosso Senhor a D. Affonso, que este foi ali acclamado rei pelos soldados, que aquillo foi uma batalha formidavel, etc. Eu cá não me metto n'essas cousas. Que Nosso Senhor Jesus Christo apparecesse crucificado a D. Affonso Henriques, é muito possivel, Deus póde fazer estes milagres, sempre que lhe aprouver, e milagre de Deus foi a nossa historia toda. Sem a ajuda de Nosso Senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez. Que a batalha fosse muito importante, não me parece, pelo menos não teve consequencias; ficou tudo como d'antes, e o que se não póde dizer é que o quartel general fosse em Abrantes, porque a Abrantes ainda nós não tinhamos chegado; que os soldados se lembrassem de acclamar D. Affonso Henriques rei n'essa occasião tambem me parece historia. Sou capaz de apostar que rei já lhe chamavam ha muito tempo, como chamavam rainha á mãe; de mais a mais, esse titulo de rei, que affirmava mais a nossa independencia, onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes, mas n'uma batalha contra os mouros, que tanto se importavam que Portugal fosse independente, como que fosse vassallo de Leão, a quem tanto convinha[{32}] que Affonso Henriques fosse rei como que fosse conde, não se percebe. Diz-se tambem que foi nas côrtes de Lamego que o titulo se confirmou. Ora adeus! Côrtes com clero, nobreza e povo ainda cá se não faziam. E de mais, quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo se passavam as cousas como agora, e que isto de fazer rei um conde soberano era negocio que se não podia praticar sem grandes ceremonias e ajuntamentos. Boas noites, meus amigos. Oiçam vocês o que succedia! Morria o rei de Leão, por exemplo, e dividia os estados pelos filhos, e aqui ficava sendo um rei da Galliza, o outro rei de Leão e o outro de Castella. E depois juntavam-se os estados, e já não havia reinos nem em Galliza, nem em Castella, depois tornavam-se a separar, e assim andavam, sem maior massada. D. Affonso Henriques fizera-se independente, era o essencial, depois começaram a chamal-o rei, e rei se ficou chamando. O que elle fez, como era espertalhão, para garantir a conservação do reino, foi declarar-se vassallo do papa, e mandar-lhe pagar um pequeno tributo, para que o pontifice lhe valesse. A manha não era má; n'aquelle tempo quem tinha por si a côrte de Roma tinha tudo.
Mas o caso não era chamar-se uma pessoa rei, era ter um reino que merecesse o nome, e esse Portugalsito, que vinha apenas do Minho até ao Mondego, para fallar a verdade, não parecia lá um grande[{33}] reino. E vae D. Affonso Henriques disse então com os seus botões: Toca a alargal-o! Ora o que faz um de vocês quando se vê com uma terrola para seu grangeio? Cospe nas mãos, agarra na enchada, começa a fossar o chão, e ali está desde pela manhã até á noite. D. Affonso Henriques fez o mesmo, cuspio nas manoplas, arrancou do montante, e elle ahi vae para a faina em que andou desde pela manhã até á noite, quer dizer, desde que lhe apontou o buço até que a morte pregou com elle na sepultura. O montante era a sua enchada, rapazes, e, a cada enchadada, saía do chão sarraceno agora Santarem, depois Lisboa. Ah! meus amigos, que vida! Aquillo era um lidar continuado! Elle casou com uma princeza de Saboya, a sr.ª D. Mafalda, mas estou em dizer que não foram muitas as noites em que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paços de Coimbra. Alta noite lá ía elle tomar Santarem, de surpreza, e outra vez constava-lhe que ía uma gente do norte fazer guerra aos mouros na Palestina, para defender contra elles o sepulchro de Christo, e vae D. Affonso Henriques ía logo á beira-mar ter com os homens, e pedir-lhes que descançassem aqui um pedaço, e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua tarefa de todos os dias. Elles não se fizeram rogar, desembarcaram, e d'ahi a pouco estava Lisboa no poder dos nossos. Muitos d'elles por cá ficaram, porque D. Affonso Henriques deu-lhes[{34}] terras, e até ha por ahi povoações que ainda se chamam com os nomes d'elles, por exemplo Villa Franca, que é como quem diz villa dos Francos, etc.
—Então os de Villa Franca são estrangeiros? perguntou o Manuel da Idanha.
—Qual carapuça, homem! Tu não te lembras da minha comparação do caldo? Não é sal, nem agua, nem carne; mas tem carne, agua e sal. A carne eram os godos, a agua os luzitanos e os romanos o sal; pois tambem no caldo se deita ás vezes o seu raminho de hortelã ou de segurelha, que sempre lhe dá assim um sabor mais cousas, tal, etc., pois esses raminhos de segurelha e de hortelã foram os estrangeiros, que aqui vieram a Portugal e por cá se deixaram ficar. Vieram tambem contribuir para fazer o nosso bom caldo portuguez.
—É bem achado, sim senhor, observou a tia Margarida.
—Pois assim mesmo é que é. Ora já vocês vêem que o pobre do D. Affonso não podia estar muito tempo socegado. Hoje tomava Cintra, amanhã Mafra, no outro dia Palmella, no outro Abrantes! Era um vivodemonio. Os mouros com elle andavam n'um sarilho. Por isso tambem tinham-lhe tomado um medo! Fallarem-lhes no Ibn-Errik, assim lhe chamavam elles na sua lingua, como quem diz filho de Henrique, fallarem-lhes em Ibn-Errik, era o mesmo[{35}] que fallarem-lhes no diabo. E que gente que elle tinha! homens como um Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, que morreu combatendo, e mais andava já pelos noventa annos, e um que tomou Evora, Giraldo sem Pavor, e outro que tomou Beja, cada qual por sua conta e risco. Gente levadinha da bréca, isso é que é fallar a verdade.
Mas, emfim, meus amigos, ainda que se diz «pedra movediça não cria bolor», sempre dá o caruncho n'uma pessoa, por mais que ella se mexa e trabalhe. D. Affonso envelheceu, mas antes d'isso já deitára um filho que era o seu retrato, valente como elle, e homem de grande talento, D. Sancho, que foi depois rei. Podia morrer descançado D. Affonso Henriques, deixava a sua espada em boas mãos e a sua corôa em boa cabeça. E com essa consolação morreu em 1185 el-rei D. Affonso Henriques, depois de ter não só tornado o reino independente, mas de o ter alargado até ao meio do Alemtejo, e principalmente de ter tomado Lisboa que era, como diz o outro, a menina dos olhos dos arabes, a cidade sem a qual não se podia fazer cá para estas bandas cousa que geito tivesse. Ah! meus amigos, se algum de vocês fôr alguma vez a Coimbra, e entrar na igreja de Santa Cruz, suba até á capella mór, e olhe para os dois tumulos que ali se vêem, pergunte qual é o de D. Affonso Henriques, e depois ajoelhe diante d'elles, porque, com seiscentos diabos,[{36}] se nós hoje não somos para ahi uns gallegos e uns andaluzes, se démos que fallar no mundo, e praticámos cousas que fazem com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez, oh! com a bréca, é a elle que o devemos, porque, como lá diz o outro, de pequenino se torce o pepino», e este reino de Portugal era bem pequerrucho ainda, quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer cousas grandes.
E o bom do João da Agualva limpou o suor, que lhe escorria pela testa com o enthusiasmo que o inflammava. Os seus companheiros escutavam-n'o silenciosos, e já não faziam interrupções nem observações. Estavam deveras interessados com a narrativa.